quarta-feira, 7 de junho de 2017

Post prometido e muito atrasado

"Picante, não se trata de não ter ficado traumatizada, ainda bem que a Picante é uma pessoa capaz (sem qualquer ligação às capazes) tem uma mente forte, é determinada, nem todos são assim, por variados factores. Se feminista não é menosprezar os homens, não é querer ser superior, e aceitar que há desigualdades porque as há, é querer colmatar esta falha, é querer poder sair sem medos, da mesma forma que os homens saem, não querer ser assediada verbalmente, sexualmente. Não é passar por esta situação e fazer-me de coitadinha, não é passar por situações de rebaixamento e olhar para o lado, e achar que vai ter de passar, que tem que se ser forte. Claro que tenho de ser forte, tenho de ser forte para dizer, não, chega! Não tenho que ser forte para não ficar traumatizada. não tenho de ser condescendente. É isso que vai dizer para a Mini Picante? Para ela olhar para o lado quando for vítima de algum "piropo"? Quando um rapaz for mais agressivo com ela? É isso que vai dizer para o Mini Picante? Que não faz mal ser uma besta com as mulheres porque elas têm é de ser fortes, e não ficarem traumatizadas?"

Ora vamos lá por partes, se é verdade que (erradamente) associo o termo " feminismo" às Capazes desta vida, aos excessos cometidos e a uma vitimização que me irrita, puro preconceito meu, assumo, também é verdade de que tenho a perfeita noção que ainda é mais fácil ser homem, mesmo no mundo ocidental, em que as mulheres trabalham, são financeiramente independentes e pensam pela sua própria cabeça. 
É a mais pura das verdades que há muitas mulheres que, depois de um dia inteiro de trabalho, ainda têm de ir fazer jantar, assim como tratar dos filhos e da casa enquanto os seus machos beta vêem futebol no sofá. É verdade que mesmo no mundo ocidental há mulheres que recebem menos, apenas por serem mulheres, que há mulheres que apanham umas sovas dos maridos, apenas por serem mulheres.
E sim, obviamente que concordo que isto tem de mudar, que há ainda um longo caminho a percorrer, que toda a gente, independentemente do género, credo ou orientação sexual, deverá ter os mesmos direitos e ser tratada com o mesmo respeito.
Aquilo que me separa das mais acérrimas feministas é talvez a forma. Não acho que se chegue lá criminalizando o piropo, acho que só se chegará lá pela educação das novas gerações. E é isso que eu ensino a mini Picantes, a ela que tem o direito de ser tratada com tanto respeito como qualquer outra pessoa, que deve reagir se/quando assim não for. A ele que tem de respeitar, que deverá intervir caso veja uma mulher a ser desrespeitada, da mesma maneira que intervém quando vê um idoso a necessitar de ajuda (na verdade fui mais longe que isso, na sequência de um grupo de colegas lá da escola andar atrás de uma das miúdas a apalpá-la disse-lhe que se alguma vez sonhasse que ele andava a meter as mãos em cima de alguém contra a vontade desse mesmo alguém lhe enfiaria um par de bofetadas antes mesmo de ele saber de onde tinham vindo).
Mas, ao mesmo tempo que lhes digo estas coisas, também sou sensata, conheço o mundo em que vivemos, sei bem que haverá sempre quem prevarique, quem seja mal educado, quem abuse do poder ou força física que tem. Sempre foi assim ao longo dos séculos e, não sejamos ingénuos, sempre será, a verdade é que há pessoas mal formadas, pessoas prepotentes, pessoas perigosas. E vai daí que também ensino mini Picantes a defendem-se de gente mais forte e má. Digo à minha filha que quando um homem se meter com ela, não sejamos ingénuos porque vai acontecer, que não tenha vergonha nem medo, que grite bem alto pedófilo, que as pessoas a ajudarão e quem será humilhado será ele. Digo-lhe que não ande sozinha porque pode ser assaltada ou pior. Não a deixo andar em sítios duvidosos sem um adulto. Explico-lhe que se usa bikini na praia, terá de vestir mais qualquer coisa para ir ao supermercado, que não pode andar de cuecas ou de pijama no meio da rua sob pena de ser alvo de comentários, enfim ensino-lhe que há certos tipos de roupa desapropriados a determinados contextos embora sejam bem aceites noutras ocasiões. Explico-lhe que se usar roupa curta em demasia as pessoas vão olhar, algumas vão ser ordinárias mesmo não tendo esse direito e sendo isso errado. Caramba o mais provável é que isso venha a acontecer ainda que ela use jeans e camisola, mas a probabilidade de que aconteça mais quando usar roupa mais reveladora é grande. Ela terá de saber lidar com isso.
Ensino-lhes que o corpo é deles, que só o deverão dar caso o queiram fazer, que nunca se deverão sentir forçados a fazer nada e que o sexo com amor tem muito mais significado. Ensino-os a respeitarem os outros do mesmo modo que também os ensino a não admitir faltas de respeito.

Anónima, faço os possíveis para que os meus filhos venham um dia a contribuir para um mundo melhor, mais seguro e mais justo. Mas não tenho a menor dúvida de que nem toda a gente é decente, de que continuará a haver perigos, de que as mulheres, sendo fisicamente mais fracas, correrão maiores riscos (tal como as crianças ou os idosos), de que nem tudo é machismo, muitas vezes é só mesmo o mais forte a exercer poder sobre o mais fraco.

(e continuo na minha, quem não quer que se lhe olhe para as mamas talvez tenha mais sucesso se as tapar do que se usar um decote até ao umbigo, mas isso sou eu, retrógrada e antiquada...)

54 comentários:

  1. "... nem tudo é machismo, muitas vezes é só mesmo o mais forte a exercer poder sobre o mais fraco."

    Justamente!

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  2. Concordo com tudo, mesmo. E o último parênteses não faz de si retrógrada e antiquada, é apenas uma verdade e bom senso. Não deveria ser assim. Toda a gente devia poder usar o que quisesse sem ter de levar com olhares ou bocas, mas não é assim que o mundo funciona, por isso acho mais que normal optarmos por taparmos algumas partes se não queremos ninguém a olhar para elas...

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    1. Eu também acho que não. O problema é que quando eu digo isto "se não querem que se lhes olhe para as mamas, tapem-nas", há sempre quem leia um "ela está a pôr-se a jeito". E na verdade não é nada disso, é só saber viver dada a realidade do mundo.

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    2. É como o racismo, andam por aí a exibirem a pele escura e depois admiram-se..

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    3. De todos os comentários idiotas...

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    4. Chama-lhes idiotas, eu chamo-lhes reativos. À sua visão curta e preconceituosa.um amigo meu chamar-lhe-ia pequeno-burguesa.

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    5. Passou de comentário idiota a comentário mal educado. Parabéns.

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    6. Anónima das 12.38, a fazer a apologia da burka? Ena, ena!

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    7. Lamentável não perceber a diferença entre andar decente ou não.

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  3. As mentalidades não contam? Décadas e décadas de incutirem às mulheres que são seres inferiores não tem ecos na vida de hoje?
    As mulheres violadas contribuíram para serem violadas? Todas andavam com as mamas à mostra? É que se ensinarmos aos nossos filhos "se não querem que se lhes olhe para as mamas, tapem-nas",ó gajos deste mundo, é fartar vilanagem!!!
    Tenham dó!

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    1. No ocidente há-de encontrar muitas mulheres que assumam qye sim, que são inferiores aos homens. Tenha paciência mas é esse tipo de discurso e distorção de factos que me afasta do feminismo. Onde é que eu digo que as mulheres são violadas porque mostram o corpo? Onde? Ora tenha paciência.

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    2. Não são nada inferiores!Trabalham e não descuram a casa nem os filhos. E sempre vestidas a preceito.

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    3. Uma coisa é falarmos de violações que é o extremo da violencia fisica sexual e nunca mas nunca pode ser admitido ou desculpado, outra coisa é falarmos de comportamentos em sociedade e no mundo em que nos inserimos. Aquilo que as mulhere e homens se devem preocupar é em ígualdade de direitos na lei e fora dela e respeito mútuo não é em achar que podem andar vestidas em sociedade conforme lhes apetece e não estarem desadequadas ao contexto em que se inserem assim como muitos comportamentos também não são admissiveis em nome da "liberdade" ou do "fazer o que quero"

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    4. Deviam ir para a tropa, se tivessem tomates para isso...literalmente.

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  4. Não podemos contar que todas as pessoas nascem e crescem com o mesmo capital social e cultural. Todas as pessoas nascem em circunstâncias diferentes e nem todas as meninas terão uma mãe Picante que as apoia e as guia, nem todos os meninos terão uma mãe Picante que lhes mostra o caminho. Mesmo que discorde da Picante em muito neste assunto, louvo a educação que está a dar aos seus filhos. Mas é esta descentralização do nosso umbigo e ver para além daquilo que é a nossa realidade protegida, que é necessário legislar muitos aspetos que eliminem a desigualdade de partida.

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    1. Mas esses aspectos até já estão legislados. A discriminação com base no género é crime, a ofensa e a injúria também, assim como o assédio.
      Mas temos de assumir que continuarão a existir crimes, por mais que mudemos mentalidades há pessoas ruins. Dizer o contrário é fazer como a avestruz, acho eu.

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  5. usar um decote vistoso é o mesmo que querer mostrar as mamas?

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    1. Obviamente que não, olha que pergunta. É querer dar nas vistas pela capacidade argumentativa e cultura geral. Sinceramente...

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    2. fui eu quem lhe fez a pergunta a que tão reveladoramente respondeu.
      saudações. tape-se muito, mas assim muito, ó Picante.
      e se calhar, é coisa para rever este seu "nick"... olhe que "picante"... depois não diga que tal e tal.

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    3. Oh! Mas eu também gosto de usar decotes....
      Tenho é o cuidado de não ia usar em contexto laboral ou de não me fazer de virgem ofendida quando o mesmo desperta olhares.

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  6. Concordo em genero numero e grau. Quem quer respeito primeiro da-se ao respeito. Alem disso eh uma educacao preventiva porque o mundo la fora nao se coaduna com idealismos.

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    1. Há muito quem viva no mundo da lua. Ainda ontem vi uma entrevista qualquer à Marisa Matias, queixa-se ela de sexismo e machismo porque tinha sido / é alvo de uma série de epítetos nas redes sociais. Já eu acho que aquilo é só gente que não pode com ela (o que eu percebo) e que a insulta por serem mal educados.

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    2. Não li a entrevista da Marisa Matias, portanto não sei que exemplos ela deu. Mas pode ser machismo, sim. Dois cenários: 1 - Pessoa não pode com Marisa Matias pelo facto de ser mulher. Convenhamos que uma mulher numa posição de poder ainda faz confusão a muita gente, e que existem coisas que são mais facilmente toleradas aos homens do que às mulheres... 2) Pessoa não pode com Marisa Matias por outros motivos, mas centra os seus ataques no facto de ser mulher. Admitamos que epítetos como «velha», «feia», «gorda», «cabra», «histérica», «mal f*****» são aplicados muito mais vezes a mulheres do que os seus equivalentes aos homens... Percebe onde quero chegar? Da mesma forma que atacar uma pessoa por causa da raça ou através da raça não é só «má formação, é racismo. O mesmo para a orientação sexual. E etc. Para mim, viver no mundo da lua é pôr tudo na gaveta da «má formação», e negar que há grupos de pessoas que são alvo de formas específicas dessa «má formação», apenas ou também por pertencerem a esses grupos.

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    3. Dado que se discutia as ideias que ela propunha parece-me normal assumir que as pessoas que a insultaram o fizeram por causa das ideias e não devido ao seu sexo.

      E eu não disse, em lado nenhum, que o machismo é inexistente. O que disse e mantenho é que muitas vezes não se trata de machismo, trata-se de pura e simples falta de formação.

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    4. Sou agente da PSP, todos os dia na minha esquadra sou confrontada com o machismo dos meus colegas, até o mais educada deixa a chávena na pia para eu lavar. Obviamente que não o faço, mas não deixam de tentar. Isto é só a pontinha do icebergue de pequeninas coisas de que muitas vez o machismo se veste. Hei-de ganhar o meus lugar, com o dobro do trabalho, claro.

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  7. Cara Picante,

    Nem sempre concordamos, mesmo neste post, mas tenho de admitir que gostei de ler o que escreveu. Permita-me que acrescente aqui qualquer coisa para reflexão.

    O feminismo, tal como o encaro, tem na sua base uma ideia que deveria ser qualificada como simples senso comum: a de que aquilo que cada um tem entre as pernas é irrelevante para a vastíssima maioria das coisas e, portanto, não deve ser motivo de discriminação injusta. Qualquer pessoa que concorde com esta afirmação e aja (ou se esforce por agir), na sua vida, de acordo com ela é, pelo menos em parte, feminista.

    Onde eu concordo com a Picante (e alguns poderão discordar, com maior ou menor fundamentação) é no facto de algumas causas feministas receberem uma atenção e ênfase desproporcionados, especialmente quando há outras causas feministas mais importantes. A desigualdade salarial entre homens e mulheres é um problema mais sério e premente, a meu ver, do que, por exemplo, o alegado sexismo na designação "Cartão de Cidadão". Não estou a dizer, atenção, que esta última não mereça qualquer atenção.

    No entanto, compreendo quem, em nome do feminismo, pugna por estas causas aparentemente "menores". Não acho que devam ser ridicularizadas ou descartadas como irrelevantes. Têm um papel, quanto mais não seja o de levar as pessoas a reflectir no facto de o sexismo estar presente onde não o detectamos. Sendo homem, passei uma boa parte da minha vida alheio a estas coisas, até começar a estar mais atento a elas, em grande medida porque para isso fui sensibilizado pela defesa de algumas causas aparentemente menores.

    Quero comentar apenas mais dois pontos:

    (1) Em relação ao machismo/sexismo versus a falta de educação e de formação:

    É verdade que nem todos os insultos a mulheres têm na sua origem o sexismo. Mas muitos têm, mesmo que não directamente. Como referiu um outro comentador, eu até posso insultar uma mulher por razões que nada têm a ver com ser mulher, mas: (1) fazê-lo usando linguagem e insultos que são inerentemente sexistas (exemplos foram dados pelo tal comentador) ou (2) ter menos pudor e reservas em fazê-lo por, ainda que inconscientemente, ver a mulher como inferior. A falta de formação neste ponto específico pode estar relacionada com algum sexismo a nível da sociedade, ainda que não a nível individual.

    (2) Em relação às roupas reveladoras:

    Este é o ponto em que terei de discordar de si. A questão não é trivial, como algumas pessoas querem fazer parecer. O conflito aqui em jogo é entre a liberdade individual e as convenções ou regras sociais. Não vou entrar nesta discussão a não ser para dizer que ponho mais peso na liberdade individual nesta matéria e a Picante, aparentemente, põe mais peso nas regras sociais. É legítimo e defensável. No entanto, consigo conceber uma mulher que compre uma peça de roupa mais reveladora e a use, não porque se queira mostrar, mas porque acha que lhe assenta bem, porque se sente bem com ela. Uma tal mulher tem o direito de não se sentir assediada por causa da forma como decidiu apresentar-se.

    Repare ainda que muito menos exigências são feitas aos homens neste respeito e muito mais lhes é permitido sem que se teçam juízos de valor sobre o que vestem e sobre a quantidade de pele que mostram.

    Cumprimentos,

    Filipe Gomes.



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    1. Filipe Gomes, o comentario que refere foi feito por mim... e nao sou um comentador, sou uma comentadora. O que seria o mais provavel, tendo em conta que se discute um tema que afecta mais as mulheres, num blog comentado sobretudo por mulheres... A questao do cartao de cidadao tem a importancia que tem, mas nao e tao ridicula como a fizeram parecer. Trata-se de nao assumir o masculino como norma. De resto, concordo com tudo o que disse.

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    2. Tem toda a razão, agradeço-lhe o reparo. Repare como foi fácil para mim usar o masculino, mesmo numa situação em que alguns momentos de reflexão me permitiriam concluir que o mais provável, como disse, era ser uma comentadora. É mais uma evidência daquilo que disse.

      Em relação à questão do cartão de cidadão, penso que talvez me tenha compreendido mal. Não a achei ridícula. Fiz apenas uma comparação com uma outra questão, a da desigualdade salarial. Acho que concordará que, se tivesse dois botões mágicos, um que mudasse a designação do cartão e outro que eliminasse as desigualdades salariais entre homens e mulheres, e só pudesse carregar num deles, a escolha não seria difícil. Era apenas nessa medida que referi a questão. Na altura em que se debateu o assunto, posicionei-me a favor da proposta, ou pelo menos do princípio por detrás dela.

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    3. "Quem não tem o que fazer faz colheres de pau", quem não tem por que lutar debate a denominação do cartão de cidadão. Não se trata de sexismo latente, não se trata de ter o masculino como norma que implica discriminação em função do género, é uma questão de língua a que um grupo de patetas se prendeu. Na língua inglesa, por exemplo, citizen tanto vale para o género feminino como para o masculino e é assim há séculos. Não é, contudo, sinal de que a igualdade de tratamento entre géneros exista há séculos nos países onde se fala inglês. Não querem mudar também o nome da declaração universal dos direitos do Homem para Humanidade, já que ser humano também é masculino? Enfim, continuem a perder-se em questões de lana caprina quando em Portugal, para não falar nos países onde realmente ainda está tudo por fazer no que diz respeito aos direitos das mulheres, e depois admirem-se que ninguém leva a sério o que dizem.

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    4. É ridículo chamar-se Declaração Universal dos Direitos do Homem. Hoje, a maioria dos estudiosos e cientistas socias usa antes 'a espécie humana'no lugar de 'Homem'.

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    5. Anonima 13h29, penso que nao leu em lado nenhum que a questao do cartao de cidadao e "a unica luta" ou sequer "a luta mais importante". O que disse sobre isso foi: "tem a importancia que tem". E a importancia que tem, para mim, relaciona-se com praticar um olhar critico sobre as coisas. Mesmo aquelas que "existem ha seculos".

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    6. Anónima das 17.03, eu sou O anónimo das 13.29 e passei só para dizer que o seu comentário veio dar razão ao meu, está a outra vez a prender-se com questões de forma em vez de conteúdo. Não é o facto de lhe chamarmos direitos do Homem ou da humanidade que importa, o que importa são os direitos consagrados no documento. É o conteúdo de uma lei que a define, não é o nome que lhe dão. Uma lei não deixa de ser sexista e discriminatória porque no seu nome deixaram de existir referências masculinas. Prefiro uma declaração universal dos direitos do HOMEM que proíbe a discriminação em função da raça, género ou religião, do que uma declaração de direitos da Humanidade ou outro nome neutro que lhe queiram dar só para não ferir susceptibilidades, mas que na prática permite que as injustiças se perpetuem.

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    7. 13.29, sou a 17h03. De acordo, entre a forma e o conteudo, venha o conteudo! Mas acho que forma e conteudo estao relacionados... As palavras que usamos traduzem a forma como pensamos sobre as coisas. Reflectir sobre essas palavras obriga-nos a refletir sobre essas coisas. Para mim, nao se trata de nao "ferir susceptibilidades" e sim de promover essa reflexao.

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  8. Apenas alguns reparos ao anónimo ou anónima das 13:29:

    (1) Na língua inglesa a maioria dos substantivos não faz flexão em género. Daí que a questão não se ponha.

    (2) Não acho que ainda haja quem se refira a esse documento como "Declaração Universal dos Direitos do Homem". Chama-se, como faz sentido, Declaração Universal dos Direitos Humanos.

    (3) Humano é masculino mas admite flexão em género. Não há sexismo em dizer "uma mulher é um ser humano", pois a palavra "ser" é do género masculino. Também podemos dizer algo como "toda a mulher é humana", e aqui a palavra flexiona em género.

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    1. Filipe,
      Totalmente de acordo quanto a direitos e deveres iguais independentemente de as pessoas terem pilinha ou pipi. Isso nem se discute.
      E concordo consigo quando diz que é possível que uma mulher use uma peça de roupa curta apenas porque se sente bem com ela. Sem que seja por pura exibição (se bem, que em última análise todos nós vestiremos para nós exibirmos, se não aos outros, a nós próprios, na medida em que usamos aquilo de que gostamos e achamos que nos valoriza). Se é verdade que a mulher tem o direito de não ser assediada, também é verdade que roupa fora do contexto, seja por ser demasiado reveladora ou por inadequada à situação, dá nas vistas e gera comentários, pode gerar ordinarices porque, lá está, o mundo não é perfeito. Vai daí que eu não acho muito normal alguém usar uma saia que quase deixe ver as cuecas e depois vir queixar-se que lhe olharám para as pernas.
      Quanto às questões menores de que fala, a verdade é que eu não consigo ver machismo numa denominação, pode ser do "olhar" sem dúvida que pode, se eu andar à procura de exemplos machistas é natural que encontre muitos mais, a verdade é que não ando e chego a achar ridículas algumas das bandeiras do feminismo de tão pouca importância que lhes dou. Digo-lhe mais, não me passa pela cabeça que um "gorda" ou "feia" possa ser revelador de machismo, aplica-se a pessoas gordas e feias independentemente do género, tal como cabra que evolui para sacana ou cabr@ se estivermos a falar de um homem. Para mim é ridículo ver sexismo nisto, só consigo. Er falta de educação.

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    2. Estou no tm, isso tem varias gralhas e vírgulas fora do sítio, as minhas desculpas.

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    3. Picante, deixe-me então propor-lhe um exercício. Pegue em dois ou três desses exemplos de sexismo que a Picante não vê como tal: o insulto "gorda" a uma mulher, os piropos na rua, etc. Escolha dois ou três e pense na forma como se aplicariam aos homens; substitua a mulher da situação em que pensou por um homem e veja o que acontece.

      Por exemplo, pegando numa coisa muito específica. O que é que acontece quando chama "gordo" a um homem? Não quero estar aqui a fazer generalizações, mas eu diria que esta situação não tem, nem de perto nem de longe, a mesma conotação que tem quando se chama "gorda" a uma mulher. "Gordo" é uma coisa que um homem diz ao amigo em tom pândego quando não o vê há algum tempo ("Eh pá, estás gordo!") Torna-se uma situação completamente distinta. Porquê? A minha explicação, com a qual a Picante poderá não concordar, prende-se com a diferente representação social que tem o corpo masculino e o corpo feminino. Nas mulheres, do ponto de vista social, ser "gorda" é visto como algo de muito pior do que no caso dos homens. E muito mais conversa haveria a ser feita sobre isto, mas quis apenas dar um exemplo.

      É falta de educação chamar gorda a uma mulher? Claro que sim, concordo em absoluto. Até uma pessoa que defenda, em teoria, direitos sociais iguais para homens e mulheres pode ter falhas de formação noutros aspectos e soltar um insulto destes. Mas não acho que se possa negar que o insulto em si tem algo de sexista; ou pelo menos é um tipo de linguagem que reflecte um fenómeno sexista.

      Conclusões semelhantes poderá tirar se experimentar fazer o tal exercício que lhe sugeri, com exemplos diferentes.

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    4. Claro que o Filipe tem toda a razão. O seu marido pode chegar a casa e comentar que a esposa do fulano tal é gorda, mas nunca dirá tal coisa do marido de uma conhecida sua, a não ser que seja doente.

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    5. Temos também o outro lado. O lado das mulheres que só por o serem acreditam que podem dizer certas e determinadas coisas aos homens só porque sim. Sem qualquer tipo de pudor ou respeito.

      Eu tenho uma tia que tem um pouco a mania que é muito educada e superior, muito fixada nos seus direitos enquanto mulher mas é a primeira a tentar diminuir qualquer homem que conheça e não lhe preste vassalagem. Há uns bons anos atrás o meu namorado engordou uns quilos e ela fazia de propósito para o humilhar fosse à frente de quem fosse, pelo excesso de peso. Chegou o dia em que ele se cansou e lhe disse que o excesso de peso era algo que se perdia mas que as rugas ja não (já não me recordo bem a frase mas foi algo do género, dito com um tom de brincadeira mas para ela perceber a mensagem).
      Pois obviamente que quem ficou mal visto foi ele e muito foi criticado por isso. Coitadinha dela então diz-se isso a uma mulher?! O tal feminismo bacoco que não procura a igualdade mas a superioridade face aos homens.

      Esse meu namorado é hoje meu marido. Não é machista, nem desrespeita os outros, não considera que as tarefas domésticas sejam uma obrigação minha ou que cuidar dos nossos filhos seja a minha obrigação. É uma pessoa que acredita na igualdade e eu também.
      Durante muitos anos considerei-me feminista mas tendo em conta a onda que aí está de pseudo-feministas, iguaizinhas à minha tia (que continua igual a ela mesma) eu creio que o termo "equalitarian" se adapta muito mais à minha forma de estar no mundo e à forma de estar no mundo do meu marido. As pseudo-feministas que acreditam ser superiores aos homens e que querem mais direitos do que os mesmos metem-me tanto asco como qualquer machista desta vida.

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    6. Ora a sua tia não é feminista coisa nenhuma, não gostava era do deu namorado.e se calhar tinha razão, a resposta dele atesta isso mesmo ou nunca ouviu dizer que " homem sério não tem ouvidos"?

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    7. Filipe, vamos concordar em discordar. Isso da sociedade esperar algo do corpo da mulher é coisa do tempo da minha avó. Inclusive hoje em dia conheço muito mais homens "obcecados" com a gordura que mulheres. Eu detesto a gordura, assumo que detesto, e detesto-a independentemente do género, acho tão ofensivo virar-me para um homem e dizer "ó gordo" como para uma mulher. Idem para o feio.

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    8. Picante, terá de ser. Está errada quando diz que a sociedade não faz uma determinada representação do corpo feminino. Está, pelo menos, iludida. Lamento que não tenha feito o exercício que lhe propus.

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    9. Cara anónima de 15 de junho de 2017 às 12:45 se formos por ditos populares parvos também temos o "quem não se sente não é filho de boa gente".
      O meu marido tendo os seus defeitos, garanto-lhe que ela não tinha razão nenhuma. Se ele lhe prestasse vassalagem ela já o adoraria... mas não a conhecendo ou o carácter dela não sabe que ela burlou os meus avós num esquema com o marido dela, que tentou roubar os irmãos, que abandonou 3 filhos ao encargo dos avós porque era demasiado especial para tratar deles e se acha o compasso moral para tudo e mais alguma coisa mas que faz tudo por dinheiro, incluindo tentar destruir a vida de todos os familiares e amigos.

      Mas é claro que ela tinha toda a razão em relação ao meu marido. Só que não.

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  9. Costume discordar dos seus posts em que o tema feminismo vem a baila, mas se calhar e mais uma questao de forma mesmo, porque no geral, percebo inteiramente as suas posicoes.
    E acho bem que transmita a sua filha determinadas recomendacoes para que ela nao enfrente determinados comportamentos (ou pelo menos minimize a possibilidade de ter que enfrenta-los) - e a mae dela e eu, como mae tambem prefiro que os meus filhos nao sejam confrontados com determinadas coisas.

    Mas nao pode ser a custa de criar a ideia de que a culpa e dela se ouvir bocas ou for tocada sem autorizacao. O comentario basico que li acima "quem quer respeito primeiro da-se ao respeito" e o mesmo que serve para perguntar as vitimas de violacao que roupa usavam no momento da agressao.

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    1. Anónima 19:55, completamente de acordo! O grande problema do discurso do «dar-se ao respeito» (ou do «pôs-se a jeito», ou do «estava a pedi-las») é que põe o ónus da responsabilidade de evitar certas situações sobretudo do lado das mulheres... e, portanto, desresponsabiliza os homens e a sociedade em geral.

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    2. Estou a lembrar-me daquele filme com a Jodie Foster que retrata isso mesmo.

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    3. Sinceramente não acho que tenha nada a ver. As pessoas têm mesmo que se dar ao respeito e isso passa por saber estar nas diferentes situações. Por saber estar entende-se não só a maneira como se fala, como também o que se diz e como se apresenta uma pessoa. Se eu me vestir como uma prostituta é normal que seja olhada como tal. E obviamente que isso não significa que alguém tenha o direito de me violar ou apalpar. Dar-se ao respeito não tem nada a ver com pôr-se a jeito.

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    4. E se a prostituta for de luxo?

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  10. Já vi tanto homem a receber piropos, pelo menos aqui pela minha zona (sou do Porto)... Jovens de senhoras mais velhas, é certo! Ainda este fim-de-semana um polícia todo jeitoso a ficar todo vermelho pelo piropo que recebeu duma senhora e a ter que manter a postura. Que diríamos a senhora para deixar de ser uma besta que estava a incomodar o coitado?!!! Desde sempre que há piropos, eu soube (e ainda saberei caso receba algum!!!) lidar com eles e não estou traumatizada, poupem-me!

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    1. Se for a uma discoteca o que verá mais será rapazes a ser assediados por raparigas. Isso do assédio ser masculino é um mito.

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  11. Ai Picante gabo-lhe a paciência!! É muito difícil argumentar a imbecilidade; se dá uma explicação sensata vem logo alguém com outro argumento/exemplo bacoco. Sou mãe de adultos a quem sempre passei os princípios (que passa muito por saber estar) que referenciou para os seus filhos e sabe uma coisa? Deu resultado! Tenho muito orgulho no resultado final :)

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    1. Fazer o quê? As coisas são como são.
      (no fundo fico sempre com a esperança de que as donas Joaquinas expurguem aqui as suas mágoas e azedumes, que lá fora sejam pessoas normalzitas...)

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