terça-feira, 30 de agosto de 2016

Isto anda tudo ligado

Conheço bastante bem uma muçulmana moderada, vive na Arábia Saudita, não pode conduzir, é obrigada a usar abaya sempre que sai de casa, não viaja sem autorização do marido que teve a sorte de poder conhecer antes do casamento (e a trata como sua igual). O filho, homem feito, trata a mulher do mesmo modo que vê o pai tratar a mãe, estou certa de que criará os filhos que venha a ter exactamente na mesma convicção de que a mulher é um ser humano, com tantos direitos quanto qualquer homem. 
Esta muçulmana moderada, chamemos-lhe Saana, passa grandes temporadas na Europa onde veste roupas quase escandalosamente justas e decotadas, diz-me a rir que tem de aproveitar, que na Europa pode decidir exactamente quantos centímetros de pele pode mostrar.
Os olhos ensombram-se quando conta como viu a sobrinha de quinze anos ser entregue em casamento a um amigo do irmão, um muçulmano mais velho e muito respeitador de Alah, conhecido entre amigos pelos seus excessos em território ocidental. Chora quando diz que a sobrinha é diariamente agredida pelo marido e que não há nada que ela possa fazer para o evitar. Também me contou como as maiores defensoras da excisão genital feminina são as próprias mulheres, mães e avós que sofreram a mutilação em crianças e mutilam agora as suas filhas, convencidas de que assim é que deve ser, que os lábios vaginais são pouco higiénicos e que os seus corpos são impuros.
Torna a sorrir quando diz que conhece vários jovens como o seu próprio filho, que está convencida de que serão homens destes os futuros responsáveis pela melhoria da condição feminina entre o seu povo.
Todos vocês, mesmo os que dizem que as mulheres usam niqabs, burkinis e afins porque querem, são contra a mutilação genital, não são? Mesmo que fosse a própria jovem a pedi-la*, verdade?

*nem sempre é feita à nascença, muitas vezes a excisão é feita por volta dos doze anos, antes da criança ser menstruada.

32 comentários:

  1. Ela não viaja sem a autorização do marido? E é moderada?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Também usa abaya e não pode conduzir. E sim, é moderada. A Arábia Saudita é que não.

      Eliminar
    2. Ela não viaja sem autorização, porque o país não permite... duh!
      Precisa duma autorização escrita, como um menor no ocidente, percebeu?

      Eliminar
  2. Quando se deu a "Primavera Árabe" (que não chegou, nem por sombras, à Arábia Saudita), as mudanças que se exigiam (e que muitas não passaram de meras vontades destruídas pelas convenções sociais daquela região) esgotavam-se na política. A mudança naquela região e nos países islâmicos tem de ser bem mais profunda: tem de acontecer na mentalidade e na forma como o ser humano, no geral, e a mulher, em particular, devem ser encarados. Parece-me que a coisa não vai ser fácil, mas a luta não pode esmorecer.

    ResponderEliminar
  3. Picante, eu sou contra a mutilação e contra qualquer obrigação em relação à vida dessa mulheres ao corpo dessas mulheres e à falta de qualquer direito dessa mulheres. A sociedade não de devia preocupar com a proibição do uso do burquini mas sim contra a falta de direito humanos contra essas mulheres/crianças, isso sim é importante.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Totalmente de acordo. Não estou é a ver a coisa a mudar assim da noite para o dia e impor pela força está fora de questão.

      Eliminar
  4. Percebo muito bem a Saana. Eu também adoro viver numa cultura que não me impõe o número de centimetros de pele que tenho que tapar (nem, já agora, o número de centímetros de pele que tenho que mostrar). Numa cultura onde as opções individuais são do foro individual. Onde esta coisa de se dizer que «uma mulher decotada é uma ordinária» (ou «uma mulher de burkini é uma provocadora da ordem social»), é enquadrada no âmbito do preconceito e não ganha facilmente a forma de lei. E espero que esta cultura assim se mantenha durante muito tempo.

    E não, não acho que se possa falar de «opção» nas situações em que a cultura não oferece qualquer alternativa. Acho é que o caminho não passa por penalizar o que existe, mas por construir o que não há. Como a sua Saana, aliás, parece estar a fazer. Nem que a excisão ou os casamentos infantis se enquadrem neste foro «individual» - são sempre algo que um adulto faz a uma criança. Seja à nascença ou aos 12 anos, estamos sempre a falar de alguém sem maturidade nem poder para decidir por si. É outra coisa.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Então e o dress code da Picante? Opá cada sociedade tem as suas tradições, eu conheço uma, também da Arábia Saudita e tem muito orgulho nelas. As mudanças não se fazem por imposição, e muito menos vinda de fora.

      Eliminar
    2. O ponto que eu pretendia mostrar é exactamente esse: é impossível e desonesto falar de opções individuais quando um indivíduo é formatado para as não ter ou, na melhor das hipóteses é castigado quando as quer ter. As mulheres são tratadas como umas eternas crianças em países como a Arábia Saudita e é por isso que acho que o paralelismo que fiz é justo.
      A minha Saana está a fazer um excelente trabalho nesta luta a que dedica grande parte da sua vida.
      E concordo consigo quando diz que a coisa não pode mudar à força, a mudança tem de vir de dentro. Mas também acho que o Ocidente pode dar uma mensagem clara de não tolerância aos abusos e violações dos direitos humanos.

      Eliminar
    3. Sim, o Ocidente pode (deve!) dar uma mensagem clara de nao tolerancia aos abusos e violaçoes dos direitos humanos. E, quanto a mim, a melhor forma de o fazer e nao prescindir daquilo que nos distingue dos que criticamos: a protecao das liberdades individuais.

      Eliminar
    4. Na teoria dou-lhe toda a razão, toda!
      Mas depois lembro-me de ainda há pouco tempo ter ido almoçar fora, à saída do restaurante cruzámos-nos com uma família muçulmana, o homem à frente, a mulher uns passos atrás, cabeça baixa, enfiada num niqab, só se lhe viam os olhos. Pela mão levava uma menina, não devia ter mais de 4 ou 5 anos, túnica até aos pés de manga comprida e véu na cabeça. Que liberdades individuais estamos nós a proteger? As daquelas mãe e menina? Ou as daquele homem a poder tratar assim as mulheres da sua família?

      Eliminar
    5. Pois, eu também não gosto dessa imagem. Por outro lado, acho que legislar a partir do que cada um de nós gosta ou deixa de gostar (além de ter uma validade questionável...) pode criar mais problemas do que aqueles que resolve.

      Nesse caso, proibir o niqab serve para quê?... Para garantir que essa mulher se veste como quer? Ou para garantir que se veste como nós queremos? E do ponto de vista do papel dela na família e na sociedade? Estamos a contribuir para um papel mais igualitário? Ou para a empurrar ainda mais para fora do espaço público? E, já agora, do ponto de vista da prevenção do terrorismo, esta «integração» serve para quê? Para integrar efetivamente? Ou para aumentar a marginalização e radicalização dessa comunidade?

      As leis têm que ser feitas com a cabeça, não com o coração...

      Eliminar
    6. Estamos a proteger as liberdades de homens machistas que encaram as mulheres como objetos.
      Estamos a dizer às vitimas de lavagem cerebral feita nesses países que eles têm razão e que nós é que estamos errados, ou seja, tanto queremos respeitar as liberdades individuais que acabamos precisamente por não proteger quem é mais vulnerável: as crianças descendentes desses pais e mães que foram formatados para encararem as mulheres como inferiores e meros objectos.

      Eliminar
    7. Serve para dizer que não toleramos esse tratamento às mulheres, quanto mais não seja.

      Eliminar
  5. Eu também conhecia um casal de Árabes modernos. Ambos liberais, ela estudava medicina, ele economia.

    Falava sobretudo com ele, que me contava que ambos passavam os dias nas zonas para estrangeiros, onde ninguém os incomodava. Ela só usava véu quando tinha de ser.

    A família dele era contra o casamento, foi uma batalha. Emigraram para o Canadá. A Arábia Saudita não era lugar para eles.

    Burkinis e burkas vêm todos da mesma origem merdosa.

    ResponderEliminar
  6. (Nada a ver com o post, peço desculpa)

    Picante reparou que a Pipoca fez um post sobre fardas e depois apagou logo? Acabei de perceber que se tratava de publicidade ao El Corte Inglés (através da Beato). Será que não pagaram?... Ainda fiz um comentário no blog mas não foi aceite, claro.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É capaz de ter publicado antes do tempo. Cambada de aldrabonas, ainda me lembro do regozijo aquando da lei da publicidade na Internet. É pena é só ser aplicada em alguns posts, noutros não deve dar muito jeito.

      Eliminar
    2. Por amor de deus... Num post que realmente importa, o anónimo vem para aqui com merdas dessas?! A sério?

      Se a Picante mudasse o seu registo, garanto que metade destes comentadores idiotas iam embora... já se vê o que esta gente gosta.

      Eliminar
    3. O post das fardas já chegou. Estão felizes agora suas parvas?

      Eliminar
  7. Picante, compreendo o que escreve e também discordo de todas essas atrocidades e ausência de respeito pela mulher.
    Mas creio que estamos a misturar questões. Isso é tudo mto bonito, mas, e vai-me desculpar os termos, as pessoas que proibiram o uso do burkini não se podiam estar mais a cagar para os direitos das muçulmanas e não o fizeram para o bem delas.
    Além disso, acho mto nobre (acho mm) que se lute contra estas questões, mas não deixa de ser irónico que não haja o mesmo empenho em combater problemas mais próximos (pelo menos culturalmente).
    Não há mto tempo, recordo-me de uma jovem violada no brasil, por diversos jovens, que foi achicalhada nas redes sociais com diversos comentários de "estava a pedir"...acho que se vamos pelo campo de mudar mentalidades e respeitar as mulheres, ainda há mto caminho para arrepiar cá pelo lado ocidental (e, alegadamente, civilizado).

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Me, o mundo não é justo e nem sempre é bonito. Infelizmente haverá sempre gente má e estúpida. Agora, a grande diferença entre as atrocidades cometidas no ocidente contra mulheres ou crianças e as que se cometem a coberto do Islão é que as primeiras são crime, encaradas pela sociedade como tal. Pelo contrário, nos países Muçulmanos, não existe independência entre o poder religioso e o poder político, o que deixa as vítimas de pés e mãos atados.
      E eu acho, acho mesmo, que o Ocidente tem de dar uma clara mensagem de não tolerância a uma cultura que minimiza e viola os direitos da mulher. Quer um exemplo? Qualquer criança excizada, nascida na Europa, deveria ser retirada à família. É mutilação e não o podemos permitir. A burka não pode ser tolerada por não permitir a identificação das pessoas. E por aí adiante.
      Quanto ao burhini eu acho que é ofensivo, permitir a sua utilização é compactuar com a ideia de que a mulher é impura e lasciva, de que está num patamar inferior ao homem. Este Verão eu vi crianças de pouco mais de 10 anos de burkini. A brincar na piscina de burkini! Caramba, apeteceu-me correr aquela gente à chapada, sabe o que é ver uma menina de 10 anos a passar a mensagem de que o seu corpo é impuro? Vieram-me as lágtimas aos olhos, foi horrível. Não pelo burkini mas pelo que o futuro reservará àquela menina. Por tudo o que o burkini representa.
      E estou convencida de que devemos passar uma mensagem muito clara de não tolerância a atrocidades nos nossos países. Mesmo que os políticos se estejam nas tintas e se preocupem com votos. O que interessa é o resultado final.

      Eliminar
    2. Me, nao precisa sequer de ir ao Brasil. Neste mesmo blog, ande uns posts para baixo e atente no post dos vestidos,ou no do decote. Leia nos comentarios os julgamentos de intencoes e de caracter que foram feitos sobre as visadas.

      Obviamente, a questao do burkini, o episodio da miuda no Brasil e estes exemplos sao situaçoes com dimensoes completamente diferentes. Mas o raciocinio de base, quanto a mim, tem algumas semelhanças...

      Eliminar
    3. Concordo em absoluto com a Picante. Os media anglo-saxónicos, como sempre, ficaram histéricos, ignorando os activistas e intelectuais de países muçulmanos, os quais consideram uma machadada na sua luta sempre que um burkini, etc, são considerados normais. Se um nudista seria autuado, porque não um burkini?

      Eliminar
    4. Espero que nao tenha visto em Portugal.

      Eles deviam viver com a cultura deles nos paises deles, tal como nos nao podemos visitar as suas mesquitas sem a cabeca tapada ou construir igrejas ou outros templos nos seus paises, o problema eh a europa querer fazer uma integracao que passa muito por ignora-los e a sua cultura.

      Eliminar
    5. Picante, mantenho o que disse. Acho mto importante lutarmos (todos) para que essa cultura muçulmana mude. Pessoalmente,acho que se combate com educação e cultura não com violência e proibições, mas admito que aqui seja uma questão de opinião.
      Passam-se imensas atrocidades pelo mundo, se vamos por ai.
      Então em solo africano...ui. Há dias li uma reportagem de um tipo, não me lembro qual o país (mas posso ir procurar) a quem os pais pagavam para o tipo tirar a virgindade às miudas, um nojo. Ainda p mais o tipo na entrevista admitia ser seropositivo.
      O que pretendi dizer foi que a medida que levou à minha reacção (contra o ataque ao burkini) em nada teve de ver com o respeito pelos direitos das muçulmanas. E prova disso,se ainda fosse preciso, foram as palavras ditas pelas pessoas q estavam na praia, enquanto a policia obrigava a senhora a despir-se. Ninguém dizia "liberdade para as mulheres, deixem de viver oprimidas!" Não, diziam "voltem para a vossa casa"...aquilo teve tudo menos a ver com lutarmos para acabar com o que se passa nos países deles e defender as mulheres muçulmanas.

      Eliminar
    6. Eu também li essa reportagem, Me. E uns dias depois li outra que dizia que o homem tinha sido preso e ia ser processado.
      A reacção das pessoas acaba por ser (infelizmente) normal: associam o burkini a extremismo e têm medo. Esquecem-se é de que a maioria dos muçulmanos extremistas, podem sê-lo apenas na ideologia e nunca passarão à violência.
      E no fundo eu concordo consigo, também acho que a mudança tem de vir de dentro e pela educação. Só acho é que o Ocidente deve ser mais duro e intransigente com aquilo que admite por cá. Mas é a minha opinião, vale o que vale.

      Eliminar
    7. Completamente de acordo com a Picante.

      Eliminar
    8. Voltando à questão da roupa e das mensagens passagens por elas: a roupa transmite uma mensagem. Acho que se a anónima soubesse ler e interpretar veria e leria que ninguém ali considera que alguém tenha o direito de violar ou de fazer mal a uma mulher que ande até nua na rua.

      Em relação ao resto eu discordo. Acho que ao respeitar o burkini, burka, nijab, etc estamos simplesmente a autorizar o total desrespeito, estamos a anuir e a confirmar a inferioridade da mulher perante o homem. Estamos a dizer àquela menina de 10 anos que ela é impura e que os pais dela têm razão e estamos a dizer a todos os extremistas que eles têm razão, estamos a justificar e a autorizar tudo o que eles fazem e tudo o que eles obrigam.

      Eliminar
    9. Anónima 16:11, parece-me que a sua resposta foi para mim (00:44). Acho que leu coisas que eu não escrevi. O que eu disse foi que acho que os burkinis & cia, a ideia de que a miúda que foi violada no Brasil estava a pedi-las, e os dedinhos apontados às mulheres que mostram o corpo, são tudo sintomas de misoginia (evidentemente, com diferentes graus). Parece-me que derivam da ideia de que as mulheres que mostram o corpo «autorizam» determinadas consequências sociais (dependendo do caso, pedradas, violações ou crítica/troça).

      Não sei se é o seu caso ou não, mas quando as mesmas mulheres se indignam com decotes («porque parece uma ordinária!») e com burkas («porque oprimem as mulheres!»), eu fico... perplexa.

      Eliminar
  8. Fiquei a sentir-me triste, só isso.
    Nem quero comentar... Que sei eu??
    Partilho aqui a tristeza que é saber que outras realidades que parecem tão incorretas ou mais injustas continuam a ser a realidade de muitas meninas, rapazes, mulheres e homens... Dizem que as coisas estão a mudar. Mas se estão, a que velocidade?

    ResponderEliminar

Os comentários são da exclusiva responsabilidade dos comentadores.
A autora do blog eliminará qualquer comentário que ofenda terceiros, a pedido dos mesmos.