quinta-feira, 7 de julho de 2016

E então lembrei-me de Garcia Márquez

Saphire Bombay, disse-lhe eu, enquanto sorria e o olhava nos olhos, acrescentando que o queria à antiga, só com tónica e limão. Sem mariquices, portanto. E para ali fiquei eu, a fitar o mar e a bebericar o meu gin tónico nada maricas, acenando de tempos a tempos com a cabeça, afinal ela não queria ouvir o que eu tinha para lhe dizer, apenas precisava de falar. E para ali ficou ela, a justificar-se, certamente que leu a estupefacção e indignação nos meus olhos quando me disse que precisava de se resguardar, que o tipo era doido e que, enfim, lhe daria o que ele queria só para ter paz de espírito. Não lhe cheguei a dizer que não se recupera o tempo perdido e que não, que elas não a iriam perdoar, que o mais provável será não perceberem e apenas verem alguém que não teve amor suficiente para lutar por elas, que ele há escolhas impossíveis.

14 comentários:

  1. Cem anos de solidão? Crónica de uma morte anunciada? O Amor em tempos de cólera? Memória das minhas putas tristes?

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  2. O tempo passa a correr e há coisas que não se esquecem, mágoas que não passam. Mais grave, se essas mágoas tiverem sido causadas pelas escolhas dos pais.
    Afinal não sou a única a beber gin tónico à antiga, sem os enfeites :P

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    1. Mundoameuspés, dificilmente um filho perdoa que um pai abdique dele em prol de tranquilidade própria, é disso que falamos, de abrir mão de qualquer contacto. Não consigo perceber, tentei mas pura e simplesmente não consigo.

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  3. Não há escolhas impossíveis no que toca a filhos. Os filhos são sempre a escolha.

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    1. Nem sempre, Anónimo, não entendo como mas nem sempre.

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    2. Deveria ser verdade, não é?
      A minha mãe abdicou de mim por muitos anos. E a Picante tem razão, não só não compreendo como não perdoo. Ela agora quer ter na filha uma amiga, uma filha que cresceu desde os 3 anos sem mãe. A filha que teve uma avó como mãe e que toda a vida viu essa avó como sua mãe.
      A minha "mãe" não passa de uma progenitora, uma que nunca me deu valor, nunca quis saber de mim, nunca acarinhou, nunca deu um abraço ou um beijo mas agora pretende exigir uma relação de companheirismo e de amor ... e isso eu não tenho por ela, nem quero ter. Tive de me tornar fria para sobreviver na relação com ela e foi ela quem fez esta nossa relação.

      Eu já sou mãe, aprendi com a melhor pessoa do mundo como sê-lo. Da minha progenitora tiro o exemplo do que não ser e do que nunca fazer.
      Ela disse demasiadas coisas ao longo da minha vida que me magoaram muito. Ela abdicou de mim várias vezes ao longo da minha vida, abandonou-me, deixou-me a milhares de km de distância dela "porque sim".
      Não lhe perdoo, não é minha mãe e eu não a quero na minha vida para nada.
      É uma desconhecida. Mas uma desconhecida que me fez muito mal e de quem eu quero distância. Ela hoje não compreende isso. Está a envelhecer e a perceber que vai colher o que plantou, não a vou deixar abandonada na rua mas irá ficar "abandonada num lar", como ela diz. Ela esperava seriamente que iria viver para minha casa, tal como a minha avó veio quando deixou de ser capaz. Está enganada. Eu cuidei da minha verdadeira mãe até ela partir, da minha progenitora quero distância.

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    3. Ela disse-me que mais tarde elas iriam compreender. Não acredito nisso, não vão. Até porque o traste do pai as alienou completamente.
      (um abraço)

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  4. Sim Picante, eu percebi o contexto. E falei como uma filha que não perdoa o pai pelas escolhas (egoístas) que fez. Um dia essa mãe vai se arrepender do tempo que perdeu em busca da sua paz. Os filhos deveriam ser sempre a prioridade, são a herança mais valiosa.

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    1. Ela está numa posição impossível, o homem provou ser um verdadeiro traste. Mas continuo sem perceber este acto de rendição. Tenho muita pena dela e dos filhos.

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    2. É verdade que há lutas com trastes que cansam, que roubam as forças e a alma, mas baixando os braços ganha ele. E não, elas não compreenderão. Há muitos anos, era eu muito pequena, o meu padrinho foi afastado da família (sabendo agora os motivos, dou toda a razão ao meu pai para o ter feito), mas ninguém se lembrou que eu, de mão dada com o meu pai na rua, não compreendia porque razão o meu padrinho virava a cara quando passava por nós e não respondia quando lhe acenava. Sempre me perguntei o que teria eu feito de mal para ele agir assim. E era apenas um padrinho. Imagino se fosse um pai ou uma mãe. Podem vir, adultas, a saber as razões e até a aceitá-las, mas ficará sempre a mágoa dessas razões terem sido mais importantes do que elas.

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    3. É o que acho Maria.
      E já nem falo da dor que imagino ser não ter contacto com um filho.

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