sexta-feira, 1 de abril de 2016

Aqui está uma das razões porque eu admiro e gosto tanto do BE e congéneres. Ou várias.

"Liberdade é assim: os opositores políticos do Bloco podem ser insultados, mas, se as meninas frágeis do BE são gozadas, há que usar meios governamentais e judiciais para punir quem teve a ousadia.
Ainda bem que vivemos na livre Europa, carregadinhos de liberdades individuais suportadas pelo capítulo dos direitos, liberdades e garantias da nossa constituição e das suas primas europeias. Um conjunto de liberdades tão arreigadas que resistem ainda e sempre ao invasor, não é?
Pois: não é. A liberdade de expressão, por exemplo, anda pelo menos engripada. Na versão de gripe masculina, em que a falta de estrogénio leva os valorosos membros do clube masculino, no mínimo, à experiência de morte clínica e de atracão pela famosa luz branca. Vejamos exemplos.

Um veio de Inglaterra, terra de gente temporariamente desorientada com o Brexit, onde um pobre homem foi preso – mesmo: polícia, grades, tudo o que a experiência dá direito – por tuitar que pediu satisfações (tanto quanto se sabe, pacificamente) a uma mulher muçulmana, que encontrou nas ruas britânicas, pelos atentados de Bruxelas. Perante isto, houve quem se portasse com juízo: a senhora muçulmana mandou o pobre homem passear e o twitter ridicularizou o tuite e o autor. Mas a justiça de sua majestade – aquela que preferiu ignorar durante anos que incontáveis raparigas eram sexualmente abusadas por um grupo de paquistaneses a afrontar os ditos rebentos do antigo Raj – esteve felizmente à altura do desafio colocado por tão virulento tuite. O autor foi preso e acusado de incitar ao ódio racial nas redes sociais.
Presumo, com toda a boa-fé, que não vai haver dualidade de critérios no que toca à liberdade de expressão de jovenzinhos excitáveis muçulmanos que morem na Grã-Bretanha quando se regozijarem por atentados ou defenderem que uma mulher que não se tape e que se maquilhe merece sopapos ou o que for necessário para defender a ‘honra’ da família assim tão ofendida. Dada a gravidade relativa dos vários incitamentos, fico a aguardar pelo menos espancamentos públicos para estes últimos casos.

Já em Espanha as luminárias do Podemos exigem o fim das procissões da semana santa, que regridem a sociedade e ofendem (havia lá de faltar) os muçulmanos (que não têm culpa nenhuma do Podemos, diga-se). Donde: para a agremiação de lunáticos financiados pela Venezuela, nas ruas espanholas os gays podem (e bem, digo eu) expressar o seu orgulho, as mulheres podem (outra vez bem) expressar o repúdio pela violência doméstica, mas os católicos não podem expressar nada, que fiquem em casa a aprender a dar a outra face.

Outro exemplo é caseiro, com as deputadas do BE a pactuarem com a Comissão de Cidadania e Igualdade de Género na queixa que fez ao DIAP do Porto por Pedro Arroja ter chamado ‘esganiçadas’ às políticas do BE, desconfiando-se de um ato ignóbil de ‘discriminação sexual’.
Temos, então, um instituto governamental – a CCIG – a gastar o dinheiro dos contribuintes patrulhando os comentadores televisivos e apresentando queixas a propósito de comentários (serem imbecis ou não é aqui indiferente) que escarneçam as senhoras que mandam num dos partidos que apoiam o atual governo. Se isto não é abuso de meios governamentais para proteção dos amigos políticos, não sei o que é.

E temos as senhoras do BE alegremente a apoiarem este abuso da CCIG e a calarem uma voz crítica. É certo que o BE nunca se apoquentou com o domínio exercido por Sócrates na comunicação social. Mas quando um cidadão foi condenado por ter efetivamente insultado o Presidente da República Cavaco Silva, o site do BE esquerda.net noticiou a condenação escandalizado pelo evidente excesso. Percebe-se: os opositores políticos do BE podem ser insultados, mas, se as meninas frágeis do BE são gozadas, há que usar meios governamentais e judiciais para punir quem teve a ousadia.
Se as senhoras do BE são esganiçadas ou não, cada um decide. É matéria de consciência e de gosto. E o comentador cobriu-se de ridículo ao supor que é uma bitola política relevante para alguém (com neurónios) uma mulher ser ou não apelativa para uma relação afetiva ou sexual com Pedro Arroja. Mas sei que as meninas frágeis do Bloco são umas tiranetes que usam os recursos públicos para perseguir vozes politicamente críticas. E isso é pior que ser esganiçada.

Bom, se calhar sou injusta para as meninas do BE. Afinal é bem possível que estejam a exercer a autocensura e a contenção da liberdade de expressão própria que perseguem nos que as criticam. Não as vislumbrei gargalhando com a ridícula cerimónia a que a restituição dos feriados teve direito, como se uma libertação de séculos de obscurantismo se tratasse, e que desconfio ter comovido com lágrimas grossas e grandiloquentes o magnífico PM. E, de facto, também não dei por exigências tonitruantes ao governo PS e ao ministro Santos Silva – que afirma confiar na justiça angolana – à volta da condenação de Luaty Beirão e dos restantes ativistas por ‘atos de rebelião’. É comparar o tom reivindicativo para com o governo PSD-CDS, mais a sua reação ‘vergonhosa’, da petição subscrita por Catarina Martins com o da notícia da condenação no esquerda.net.

Há alguma coerência. Em boa verdade o BE não pode apoiar um governo cujo primeiro-ministro age como agente de negócios de Isabel dos Santos junto da banca portuguesa, preferindo o dinheiro angolano ao espanhol, e depois vir pedir que esse governo reclame, sem ser em falsete, das falhas do regime do papá da parceira de negócios."

23 comentários:

  1. queria ver a CCIG defender a Júlia Pinheiro! esganiçadas... são umas fraquinhas, comparado com o que a outra tem aguentado, do que dizem de si própria!

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    1. Eu queria ver era alguma coerência. Isto é gozar com a inteligência dos Portugueses.

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  2. Arguta como sempre, Picante. Considero a Catarina Martins a mulher mais perigosa de Portugal, porque é inteligente e focada. Não há nada pior do que um traidor de classe, são sempre os mais sanguinários a reivindicar o sangue de antigos colegas de escola. O pessoal todo que anda a votar neles, porque é engraçado e somos todos muito hipsters, muito terá a chorar se eles algum dia tomarem o poder completamente. É que a revolução vai-se fazer com pezinhos de lã e qualquer dia acordamos na ignóbil ditadura do politicamente correcto, em que um filho de um casal de direita vale menos do que um filho de um casal de esquerda. Esperem, se calhar já acordámos...

    Beijinhos,
    Joana

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    1. Detesto-a. Os demagogos inspiram-me um profundo asco e a Catarina é do mais demagogo que tenho visto, ao nível do Sócrates, essa vítima do PSD.

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  3. Pipocante Irrelevante Delirante1 de abril de 2016 às 11:34

    Eh lá, post cheio de links... é só pub, é só pub...

    (não há tempo para ler sem ser na diagonal, o pai já volta)

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    1. Vá pela sombra que este sol ainda está muito baixo, diz que faz mal à cabeça.

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    2. Pipocante Irrelevante Delirante1 de abril de 2016 às 16:54

      Tou fechado em casa, não apanho sol na moleirinha.
      (ainda que sem tempo para blogs)

      Mas já venho, já venho...

      (escrevem textos grandes, ainda por cima sem bonecos, querem o quê?? Isto demora... a não ser que prefira uma simples bajulação, diz que agora andam praí bloggers a implorar por elogios, homessa!!)

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  4. Se ouvir ou vir o governo sombra do último sábado, o RAP falou dalgumas destas questões, com um toque de humor, claro. Sendo de esquerda, se há coisa que ele preza é a liberdade de expressão e tem sido um dos que dá a cara na defesa do Luaty.
    Ainda, a propósito dos atentados, e por alguém do PCP ter dito que a culpa é da pobreza na Europa, disse algo do estilo "tenho uma teoria estranha... Em princípio acho que a culpa é só dos terroristas" :-D

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    1. Achei indescritível o voto contra do PSD e CDS. Uma vergonha.
      (não vi, lá vou eu à box...)

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    2. Se lhe for mais prático: http://tviplayer.iol.pt/programa/governo-sombra/53c6b3a33004dc006243d5fb/episodio/t3e12

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    3. Olá, Picante:

      Boa tarde. Porque é que acha indescritível o voto contra da Direita? Gostava de ler as suas razões, Picante.
      Então um orgão de soberania como a AR deve imiscuir-se na decisão de um outro orgão de um outro país? Se a assembleia não pode opinar sobre as decisões dos nossos Tribunais, tem algum cabimento «dar palpites» nos dos outros?
      Pergunto porque gosto de a ler :-)

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    4. Porque o que aconteceu em Angola é um atentado aos direitos humanos e à liberdade de expressão. Afinal em quê que ficamos? Temos o direito (e dever)de condenar atentados aos direitos humanos? Ou quando o dinheiro dá jeito, calamos? Como tanto se ouve criticar aos EUA?

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    5. Mas, Angola é uma «democracia». Tem um Governo eleito pelo povo [o MPLA, em 2012, ganhou por uma maioria de mais de 2/3]. Goste-se ou não é a verdade. É um atentado sim, mas no meu entendimento só a ONU tem legitimidade para imiscuir-se. Angola já não é uma colónia e não acho que tenham sido os motivos económicos que estiveram atrás do voto contra, mas sim os motivos mencionados: Angola é um Estado soberano. Mas, obrigada pela sua resposta :-) Discordamos, mas é sempre um gosto lê-la :-)

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    6. Sim, é verdade. Mas uma condenação do acto não é necessariamente uma intromissão. É apenas dizer "acho mal, isso não é correcto".
      E concordo, qualquer acção caberá à ONU.

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    7. Esqueci-me de agradecer o link. Obrigada, Joana!

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    8. Picante, não tem nada que agradecer.

      Anónimo: para além de toda a questão de direitos humanos e de liberdade de expressão que este caso envolve, a AR para mim tinha mesmo de se imiscuir porque falamos de alguém que também é cidadão português!

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  5. Aprendem todas pela mesma cartilha, é impressionante. Supé pespinetas, sarcásticas, irónicas. Não pensam duas vezes em deturpar opiniões alheias, sempre a partir do princípio que quem não é lá da malta é intelectualmente e moralmente inferior. Depois uma pessoa responde-lhe na mesma moeda e, pronto, é um ai Jesus que não se aguenta.

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    1. Sim, Picante, lembra-me de si. Estava a ler a NM e a "vê-la" a si. Ali a partir do sarcástica, tudo se aplica a si. Parabéns pela perspicácia NM.

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    2. (Ahahahahahahahah boa tentativa anónima!!)

      Lembra Pic, então não lembra... Uma carrada de gente, na bloga e fora dela.

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    3. Eu, cá fora, não me dou com gente assim, a verdade é que as pessoas com quem discuto vivamente estas coisas da esquerda e direita, são pessoas capazes e com bom poder de encaixe.

      (ali a dona Joaquina não deve ter ouvido, as vezes necessárias, que a conversa não chegou à cozinha, quando era pequenina...)

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  6. Razões por que é não porque

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  7. Eu que até gostava da Mariana Mortágua e da Marisa Matias... Quando soube das queixinhas... Pfff. Que meninas. Infelizmente em Portugal o socialismo foi com o caralho nem sei se alguma vez existiu. Não tinha dúvidas em escolher o meu lugar :(

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