quarta-feira, 9 de março de 2016

Uma pessoa fica com o nervoso, é claro que fica

Pais que projectam nos filhos aquilo que gostariam de ter sido mas nunca conseguiram, por boas ou más razões.

Caramba, há lá uma miúda, na ginástica, que passou para a elite, deu-se o caso de a miúda não ter aguentado a pressão, andava triste que dava dó, sempre com dores de cabeça ou barriga, tudo lhe servia de desculpa para não treinar, morria de medo do treinador, a miúda dava dó, não sei se já disse. Um dia meti o nariz em assuntos alheios, disse aos pais que talvez fosse melhor passá-la para uma classe ligeiramente menos exigente, que tinha apanhado a criança a chorar, com dores de barriga e medo de as participar ao treinador, que eles vissem lá isso porque a miúda não andava feliz.
Disseram-me que sim, que tinha muita razão, mas que a Matilde estava a evoluir que era uma maravilha, que lhes tinha sido participado que aquilo era material para levar à Europa. Apesar disso, da Europa, lá o pai se decidiu a mudar a criança de classe, derivado dela lhe ter dito que queria largar a ginástica, e se a miúda gosta de ginástica.
Encurtando a história, a Matilde passou para uma classe ligeiramente menos avançada e voltou a sorrir. Há uns dias atrasado cruzei-me com o pai, ambos à espera das meninas, quando lhe pergunto se também desce responde-me que não, tem de falar com o treinador, quer saber quais os planos que o ginásio tem para a Matilde, que ela regrediu imenso, se não voltar já para a elite nunca mais apanha as outras, que assim a tira da ginástica, parecendo que não aquilo ocupa-a umas três horas por dia e é tempo que rouba aos estudos.
Lembrei-me que em tempos também perguntei ao meu chefe quais eram os planos que a empresa tinha para mim, não tinha era dez anos, e desejei-lhe um bom fim de semana.

22 comentários:

  1. Hã? Não percebi (e não sei se tenho de perceber).
    O pai vai tirar a filha da ginástica porque
    A) lhe rouba tempo ao estudo?
    B) a criança regrediu imenso?
    C) a criança não está ao nível das competições europeias?
    D) todos os motivos anteriormente identificados?

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    1. A e B com o receio de nunca chegar a C se não passar novamente para a elite.
      O senso é que o treinador das elites não anda ali a brincar e só quer miúdas que levem aquilo a sério e aguentem o ritmo.
      Engraçado que a falta de tempo para os estudos só é problema se a miúda estiver a ser preparada para ir à Europa, sendo que, vá ou não, é assumido que não fará da ginástica profissão.
      No meio disto tudo ninguém quer saber do que quer a miúda...

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  2. Incrível a capacidade que alguns pais terem de provar, diáriamente, que são uns frustrados. <Sad, so sad...

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  3. Pessoas que usam os filhos para seu proveito pessoal. Nos blogues como na vida lá fora.

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    1. Por acaso acho que não tem nada a ver, não fazem aquilo por mal. O pai desejava ter sido ginasta e não conseguiu. Está a projectar na filha os seus próprios sonhos.
      É errado mas não é consciente, acho eu.
      Eu percebo perfeitamente que isto possa acontecer, eu tenho de me controlar muitas vezes para não pôr qualquer tipo de pressão à minha própria filha, vejo-a a evoluir tão rapidamente, já é melhor do que aquilo que eu era, que fico ali meio a babar-me. Mas mordo a língua e aguento-me, a ginástica será sempre uma opção e escolha dela, sem interferências dos pais. A única condição é que tenha bom aproveitamento na escola.

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    2. Acaba por ser em seu proveito, na medida em que usam os filhos, ainda que inconscientemente, para atingir patamares prazerosos que de outra forma não conseguiriam. Isto sem ter em linha de conta a criança em si. Claro que não estão em causa valores monetários mas muito mal vem ao mundo e não é todo por conta do dinheiro. A vaidade mina.

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  4. Pipocante Irrelevante Delirante9 de março de 2016 às 11:07

    Seria interessante saber que desportos esse senhor praticou ou pratica, quais os resultados obtidos, e quais eram as suas aspirações e motivações.
    Não sei a idade da petiza, ou se de facto ela é um talento nato para a modalidade que se está a perder por preguiça, mas a verdade é que o desporto deve ser, antes de competição, um prazer. E se não existe prazer, não vale a pena, para obrigações já basta os empregos.
    Os sacrifícios e tudo o mais, na ginástica das minis ou nas maratonas das maxis, são um sinal de força e perseverança, nao é bom sinal desistir à primeira contrariedade ou apenas porque sim, mas há que traçar uma linha entre a superação pessoal inerente ao ser humano e a destruição do corpo e mente em busca de objectivos inúteis.

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    1. PID, ele fez ginástica. E a miúda é boa, bem orientada pode perfeitamente ir aos campeonatos europeus daqui a 5 ou 6 anos.

      A questão é que nem todas as crianças têm a cabeça virada para isto, mesmo que tenham aptidão natural.

      Estas miúdas treinam cerca de 20 horas por semana. Isto significa que o ginásio é a (única) brincadeira que têm. A minha filha não vê televisão, não joga no tm e tem pouco tempo para estar com as amigas fora do ginásio. Ela está feliz com isto e o aproveitamento escolar tem evoluído na razão inversa ao tempo livre que ela tem. Mas jamais me passaria pela cabeça pensar em planos que o ginásio tenha ou deixe de ter para ela. As miúdas têm 10 anos, por amor da Santa!

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  5. É, no mínimo, revoltante!

    www.pensamentoseepalavras.blogspot.pt

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  6. Ai Pipoca, isso é tão comum!
    E nas pequenas colectividades desportivas, é um nunca mais acabar de pais sempre de volta dos treinadores, a solicitar mais protagonismo para os seus petizes, a dar dicas de gestão das equipas, a zurzir nos petizes dos outros, a dar orientações durante os treinos... Todos cuidam ter ali pequenos Cristianos e ai de quem não lhes alimente o ego!

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    1. O mundo do futebol irrita-me sobremaneira, não tenho a mínima paci~encia para os pais das pequenas estrelas que nunca o virão a ser.

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  7. Nitidamente estão a tentar ser, através dos filhos, aquilo que nunca conseguiram ser. Já vi um pai a humilhar o filho porque o pequeno não jogava bem à bola. Repreenderam-no e ainda foi mal educado em resposta "porque o filho é meu e eu é que sei". Os filhos não podem ser, nunca, jamais, em tempo algum, a extensão dos pais.

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  8. Picante, eu discordo com o que diz.
    É claro que é natural que a miúda fique bem por voltar à antiga rotina, mas isso não resolve o problema.
    A minha filha (10 anos) também já passou por uma situação semelhante. No caso dela com outra actividade extracurricular. Ela evolui e "passou" para um nível acima. E ela que adorava aquilo passou a não querer ir, a chorar, a ter dores de barriga, dores de cabeça, etc... Eu podia ter pedido para ela voltar para grupo onde estava, mas isso não resolvia o problema. Apenas solucionava aquela situação.
    Tive de "trabalhar" com ela o receio daquela nova situação e ajuda-la a adquirir auto-estima e autoconfiança que lhe permitam ultrapassar os receios, que todos temos, de situações novas, mais difíceis, mais complicadas, etc.
    Há crianças que são muito bem estruturadas (quer seja pelo ambiente onde crescem, quer seja pela sua maneira de ser) e que conseguem lidar com situações novas.
    Há outras crianças que podem ser mais inseguras, mais ansiosas, ter menos auto-estima, etc... e têm dificuldade em lidar com novas situações (pode até ser só com algumas situações). E "levá-las" de volta para onde se sentem confortáveis não é solução.
    Eu não tenho pretensão nenhuma em relação ao "futuro" da minha flha na área em questão. Ela adora fazer aquilo e felizmente pode faze-lo. Se ela está pronta, tem as capacidades para passar para o nível seguinte, para avançar, então tem de avançar. E temos de os ajudar a enfrentar isso se eles têm dificuldade em faze-lo.
    É que isto vai acontecer muitas vezes na vida deles. E por isso têm de perceber que quando estas situações acontecem é necessário enfrenta-las e não ir embora de volta para onde estávamos tão bem.
    Na minha opinião, nós pais temos de os ajudar, dentro do que conseguimos, a ultrapassar os seus problemas, os seus receios, as suas dificuldades. E se eles o conseguirem fazer isso, crescem e ficam mais fortes, mais seguros e sentem-se mais capazes. E, basicamente, é isso que nós (pais) queremos.
    Mostrar a uma criança que quando ela tem medo, receio, angustia, ansiedade (somatizando tudo isso) por um situação, que o que se deve fazer é "sair de onde estamos mal" e voltar para onde estamos confortáveis, não a vai ajudar em nada.
    Espero que não leve a mal a minha intervenção. Esta é a minha opinião, e por ser mãe e ter passado por uma situação muito semelhante (o que diz sobre essa menina é tal e qual o que se passou com a minha filha), sei que o que temos de lhes dar são "ferramentas" para se sentirem capazes de enfrentar os novos desafios.

    Maria

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    1. Excelente perspetiva, Obrigada.

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    2. Não levo nada a mal, era só o que mais faltava.
      Eu percebo o que diz e dar-lhe-ia toda a razão se aquilo fosse um problema de falta de confiança por ter saída da sua zona de conforto. Mas não é. A questão é que eu acho que a miúda não está preparada para passar para a elite, não fisicamente mas mentalmente. Estamos a falar da alta competição: treinos de 4 horas por dia, 6 dias por semana. São treinos muito duros para as miúdas porque aquilo é mesmo levado a sério, sem conversas nem brincadeiras. Elas têm mesmo de querer, têm de gostar do treinador, têm de adorar cada minuto que passam ali. Não é claramente o caso desta criança.
      A alta competição não é para toda a gente, há miúdas que por mais jeito que tenham não chegam lá, falta-lhes a parte mental que é importantíssima.

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  9. Não são só os pais que se projetam nos filhos. Há bloggers que se projetam no lugar deixado vago por quem ocupou a Presidência da República. Pois então não vemos o caso da Cocó, que já vai no 2º post seguido a aconselhar livros que não leu?

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  10. Anónima, não publiquei.
    Terá alguma razão mas a verdade é que é coisa que não me apoquenta. Viu-se aflito, quer passar uma esponja, por mim tudo bem.

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