quinta-feira, 3 de março de 2016

Outros tempos

O tio Tó, tio António como passou a exigir ser tratado, desde que saiu da Damaia para desposar a tia Pepa da Quinta da Marinha, era muito querido entre amigos e família. Todos o respeitavam, era um tipo inteligente e mordaz, um espírito vivo que fazia gargalhar a mesa inteira, mas sempre com uma palavra gentil para com os mais tristes e fragilizados. Derivado disso, da graça do tio Tó, perdão, António, família e amigos aceitavam-lhe bem o moralismo excessivo, este tio tinha sempre uma palavra a dizer sobre os actos alheios, lá ia criticando os restantes comensais, a maior parte das vezes com graça, não perdoava quem não estava bem dentro dos seus elevados padrões morais. Oh! E que elevados padrões morais tinha o tio Tó, perdão, António. Aquilo era um nunca mais acabar de exigências, ora dizia aos filhos, o Tomás e a Pureza, que haveriam de tratar os outros sem a mordacidade com que ele próprio tratava toda a gente, ora oferecia livros técnicos à pobre Francisca, coitadinha da prima Francisca, o tio achava-a um nadinha ignorante e não se coibia de partilhar ostensivamente a sua própria sabedoria com ela, ora falava, emocionado, das óperas a que fazia questão de assistir desde que a senhora sua sogra, a senhora dona Maria Prudência, o tinha inserido cá nestas coisas de gente culta, enquanto admoestava subtilmente os que preferiam teatro... Não era fácil agradar ao tio Tó, perdão, António. 
Mas, dado que o tio Tó, perdão, António, tinha piada, ainda por cima dava o braço às primas mais velhinhas, deixava passar as senhoras à frente e abria sempre as portas, toda a gente lhe ia aceitando os reparos com maior ou menor serenidade.
Só a tia Pepa parecia corresponder a tamanha exigência, sempre muito serena e sorridente, pequenina e magrinha, tinha sempre a palavra certa na ponta da língua. E era um gosto ver a maneira amorosa como o tio ainda a olhava, ao fim de tantos anos. "A tia Pepa?" dizia ele, "Já não há mulheres assim, eu tive muita sorte, ela é muito melhor que eu, é ela quem mantém unida esta família, não sei o que fiz para merecer uma mulher tão bonita".
E os anos foram passando, o Tomás e a Pureza foram crescendo, tornaram-se uns jovens encantadores, sob a influência do pai, as reuniões de família foram acontecendo, sempre sob os gracejos condescendentes e moralistas do tio Tó, perdão, António, até que um dia, num dos serões, enquanto o Tomás procurava qualquer coisa na internet, no IPad do pai, cai uma mensagem nova e abre-se a janela do chat. O Tomás arregala os olhos, espantado com o que vê, não resiste e lê parte do histórico, apesar de o tio Tó, perdão António, lhe ter ensinado que era falta de respeito ler o correio dos outros e, com a voz a tremer de indignação e decepção, diz: "Oh!.. Pai!... Mas o pai engana a mãe, com outras mulheres, na internet?..."

22 comentários:

  1. Bela estória.
    Havias de participar no meu concurso.

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    1. Achas? Não que esta estória não está à altura daqueles poemas magníficos que te enviaram.

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    2. Tu és a Tia Pepa da Quinta da Marinha? As minhas condolências.

      Se a menina falar disto: http://www.msn.com/pt-pt/noticias/sociedade/amea%C3%A7ada-e-agredida-enquanto-era-ministra/ar-BBqhPos?li=BBoPWjC&ocid=mailsignoutmd terá toda a razão no que disser, ao contrário dos assuntos que tem abordado ultimamente.

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    3. Eu sou a narradora. Como é óbvio.

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  2. Picante, ou há mesmo coincidências bem curiosas (ao contrário do que dizia a nossa diva da escrita), ou a menina sabe mesmo, mas mesmo muito sobre o tio António. Certeira.
    MC

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    1. As coisas são como são e eu sou assim, certeira.
      (não faço ideia de quem fala...)

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    2. Ora essa, sobre o tio António, quem havia de ser?
      MC

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    3. Mas a MC conhece o meu Tio António?

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    4. Conheço, pois. :D O mundo é uma aldeia, Picante. E das pequeninas.

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    5. Desde que não me diga que o conhece da internet...

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  3. o tio Tó, perdão, António precisava de um pouco de fuego que a tia Pipa não proporcionava. caramba.

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    1. Disso já não sei nada Cláudia. Mas olhe que estaria capaz de apostar que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

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  4. É por estas e por muitas outras que qando vejo muito moralismo desconfio logo...

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    1. Walk the talk. Não é fácil, nao...

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    2. O Tio António ainda se lembra de como era bom, no tempo em que era o Tó, tratar as coisas pelos nomes aquando da intimidade. Agora, bom, agora anda super aborrecido porque no leito tratam-se por você e a posição é sempre, obviamente, a do missionário. Um homem não resiste às memórias dos bons velhos tempos e vai daí... (na Cova da Moura há internet, não há?)
      A.R.

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    3. Hoje em dia há internet em todo o lado.

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  5. Bonito texto, Picante. Gosto deste seu registo... Bom fds.

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  6. Pode-se tirar o tio Tó da Damaia. Não se consegue é tirar a Damaia do tio Tó.

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  7. Respostas
    1. É isso. Ela também tem um tio António garanhão das "internetes"

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