segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Agora sim, a Paz

Oitenta mil crianças, resgatadas. Crianças que eram vítimas de maus tratos, tráfico ou exploração laboral, sendo que a maioria eram escravas. Kailash diz que o seu primeiro dia de aulas foi marcante, ao chegar à porta da escola, viu uma criança que trabalhava com o pai, na escola disseram-lhe que as crianças pobres não estudavam, mais tarde arranjou coragem e foi falar com o rapaz. Aos onze anos escreve uma revista sobre a exploração de pessoas, que envia para as autoridades.
Quanto a mim, um Nobel deve reflectir isto mesmo. O trabalho de uma vida.

Malala? Sim, Malala é enternecedora. E tem um excelente Marketing à sua volta. E é isso.

36 comentários:

  1. Será assim tão relevante minimizar o trabalho da pequena só porque teve sorte na vida?
    Vejamos, há muita gente com sorte na vida, berdad?
    E que fazem elas com essa sorte? Muitas vezes nada, nadinha.
    Ela fez.
    Se merece um nobel por isso? Ou será a "mais" merecedora? Talvez não.

    Mas se sentirmos todos muita vontade de sermos fundamentalistas nisto do "ser bom/fazer o bem", iremos fazê-lo sem pensar nos que se calhar fazem tanto mais. Faremos porque queremos, porque no meio de tantas escolhas, escolhemos fazer aquilo, sem publicidades, sem marketing pessoal, sem ajudas.

    (confesso que me aborrece menos a Malala ganhar um nobel, do que aquelas pessoas muito boazinhas, com as fotinhas que tiraram no seu turismo solidário em África, que as postam amiúde caso as pessoas se esqueçam que elas já foram muito solidárias, (já disse em África?) e que bem que ficam ao lado dos meninos pequeninos, tão engraçadinhos, coitadinhos, deixa-me cá dar-lhes uma camisola do Ronaldo, que isso certamente fará a diferença nas suas pequenas vidas)

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    1. Quanto a mim, o Nobel deve traduzir isso: o trabalho de uma vida.
      E a 'vida' pode ser longa ou curta, consoante estejamos a falar de alguém novo ou velho. No caso é uma miúda de dezassete anos.
      Vida curta, mas de grande coragem, se compararmos a atitude dela (mesmo que possa, em algum ponto, ter sido manipulada e apoiada) com a atitude de alguém da idade dela, igualmente rodeado de uma máquina de marketing (ex. J. Bieber).
      Com máquina ou sem máquina, com vidinha fácil em colégios caros, ou sem isso, esta miúda é um exemplo para os jovens, e encerra na sua atitude e ‘trabalho’ um fundo de esperança, se não para nós ocidentais desconfiados, pelo menos para aqueles que lá do outro lado do mundo, ainda não lhe é permitida a educação e a liberdade.
      Esta miúda pode não ter tido na sua curta vida, tempo para desenvolver a teoria do nano-átomo, mas consegue plantar uma coisa muito mais importante, que é a semente da esperança num futuro melhor, dita por uma criança (que é ela) a outras crianças.
      É nisso que reside o prémio.
      Na antecipação.

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    2. É esquisito dizer que alguém teve sorte em levar um tiro. Mas, na verdade, aquele tiro foi o melhor que lhe aconteceu, graças a isso a pequena tem agora uma vida com que nunca poderia ter sonhado.
      Não se trata de menosprezar. Na verdade ela não fez nada a não ser dar meia dúzia de entrevistas. Uma miúda corajosa, com um discurso comovedor. Ainda assim não concordo com esta atribuição, acho demasiado cedo.

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    3. Pois, Uva. Mas o Nobel não é a propósito de antecipação, é a propósito de trabalho feito.
      E não gosto que os órgãos de comunicação falem de um indiano e de Malala. É uma falta de respeito a quem dedicou toda a vida a resgatar crianças e fez um trabalho admirável. Oxalá Malala consiga vir a fazer um quinto do que Kailash fez.

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    4. Independentemente de concordar ou não que Malala receba o prémio, acho que é redutor dizer que tudo o que fez, foi dar meia dúzia de entrevistas. O motivo que a levou a ser baleada, a meu ver, é que a coloca numa posição de mérito. No entanto, não sei quem foram todos os candidatos ao prémio para saber se mereciam mais ou menos.
      O prémio foi partilhado, justamente partilhado, na minha opinião. E partilha é partilha, não lhe vamos atribuir percentagens, foi dividido, pronto!
      Acredito que Malala se sinta agora na obrigação de fazer muito mais, no entanto, fica também mais exposta. Talvez "tenha a sorte" de levar outro tiro....

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    5. Sabe muito bem que não foi isso que quis dizer. E que, como ela, há milhares de raparigas que lutam diariamente contra um regime que as oprime, que as rebaixa enquanto seres humanos. Ela levou um tiro e foi salva, é a única razão por que deixou de ser mais uma.

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    6. O prémio Nobel cada vez mais foge o seu propósito e transformou-se numa mensagem política.

      Já tinha dito num outro post que a Malala é uma menina como tantas outras. Explicando agora um pouco melhor, é uma menina como tantas outras que vivem nas mesmas condições que ela vivia. Sabem quantas ONG existem na Índia com crianças que querem uma vida melhor? que lutam por uma vida melhor? que arriscam a vida todos os dias só para poderem beber água? para acederem a uma simples casa de banho? A Malala teve sorte (e não me refiro ao facto de ter levado um tiro) teve sorte em ter conseguido que o seu caso fosse mediatizado, teve sorte em conseguir sair do Paquistão. Em nada desvalorizo o trabalho que tem feito, até porque ela poderia simplesmente não se manifestar, em viver uma vida à parte disto tudo e não fez, e fala e tem uma voz, mas não vamos esquecer que INFELIZMENTE como a Malala existem muitas mais meninas espalhadas por este mundo, para mim este prémio não é somente para ela mas para todas que lutam todos os dias e que não conseguem atingir o mesmo número de pessoas e da mesma forma que a Malala.

      Minimizar é dizer que o prémio foi atribuído a Malala e a um activista indiano.

      Em nada minimizo o valor da Malala, mas o prémio Nobel deveria ser por um trabalho de uma vida, porque se vamos atribuir com base nestes requisitos então para o ano entregar o prémio à Angelina Jolie, e daqui a 2/3 anos à Emma Watson não deixa de ser merecido...

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  2. Sim, existem muitos heróis anónimos, mas não me choca nada que a Malala seja Nobel da Paz. Representa a força da mudança.

    Tenho uma colega, da minha idade, que está a fazer voluntariado no maior bairro de lata do mundo. Admiro aquela rapariga como tudo. Todos os dias espreito as novidades (todos os dias, é como quem diz, que ela não escreve todos os dias...). É um exemplo, para mim.

    https://www.facebook.com/hairevoltar/timeline

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  3. Pipocante Azevedo Delirante13 de outubro de 2014 às 10:02

    Quem sou eu para aferir se a Malala ganhou bem ou ganhou mal? Nem consigo decidir se o Benfica venceu justamente a semana passada ou se foi com ajuda do árbitro, quanto mais...
    Tem marketing? Claro que tem. Tem aquele sex-appeal? Certamente.
    Mas o Nobel também é isso, o uso do mediatismo para aproximar as pessoas de conflitos que estão lá bem longe. Porque desenganem-se, por mais aviões e internetes e feicebuques, o paquistão está tão distante do bom e velho Ocidente como há 1000 anos atrás.
    Vemos imagens, filmes, reportagens, mas também vemos imagens do super-homem a voar com as suas trusses encarnadas, e isso não quer dizer que seja real para nós.

    No fundo, a única coisa que chateia é o nobel ter ido para a Malala e para "aquele senhor indiano"

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    1. Aborrece valentemente. Aquele senhor indiano tem uma obra incalculável.

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  4. Concordo, absolutamente, Picante!

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  5. É uma pequena que se as atenções do público se tenham concentrado na jovem, quase se atribuindo um papel secundário ao trabalho desenvolvido por Kailash Satyarthi, mas a verdade, sabe bem, é que hoje já ninguém fala no Nobel e daqui a uns meses será recordado como aquele prémio da garotinha que foi baleada.
    O trabalho desenvolvido (?) por uma e outro permanecerá e isso será o que verdadeiramente interessa. Encaremos o galadão como o reconhecimento de uma vida e um incentivo (acredito que depois de concluir os estudos em escolas de elite continuará a lutar pelos que nem à mais humilde das escolas tem acesso) para outra.
    Em última análise, se a menina tem morrido teria dedicado a sua vida a lutar pelo direito das crianças à educação, uma vida curta, mas uma vida.

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    1. Haveria muito tempo para lhe dar o Nobel, Mirone. Foi prematuro.
      (mas depois de Obama...)

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    2. Pois foi o que pensei. O prémio Nobel da Paz, tal como muitos outros, não basta um só acontecimento, uma só obra.
      E embora não minimizando a tragédia vivida por Malala, acho que foi prematuro.

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    3. seria fantástico usar o mediatismo de Madala para mostrar a obra de Satyarthi, projectá-la, reunir ainda mais apoios de forma a retirar mais crianças da escravatura e devolvê-las aos bancos das escolas. Mas isso não vai acontecer e é pena.
      Sim, será precoce, por isso disse que devia encarar.-se o prémio como um incentivo ao trabalho.

      (quanto a Obama... foi uma bandeira, não sei bem de quê ainda. Vejam, num pais que ainda tem pema de morte e que ainda quer mandar no mundo à forlça de guerras elegeram um presidente com origens africanas. Era isso? Se calhar - quase de certeza - não é só isso. Justifica o Nobel? Se calhar - quase de certeza - também não.).

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    4. O meu primeiro comentário não faz muito sentido (escrita automática?). Deve começar com "É uma pena que as atenções do púiblico..."

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  6. Ficava feio não dar à Malala! Ela foi muito falada, fotografada, entrevistada nos US of A, se não recebesse o Nobel ia ser um "oh my gosh europe totally sux!".
    Ainda haveria confusão com os suecos e dinamarqueses.
    Não estou a dizer que não mereceu, mas o marketing a mim chateia-me. Porque decidiram que sim, é cool apoiar a Malala, eu não apoio nem desaprovo a pessoa e o trabalho porque não o meu conhecimento é superficial. Em parte, concordo com o que a Picante escreveu.

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  7. Já discutimos sobre este tema aqui no trabalho. Em vez de referirem o marketing, falava-se do facto de ela ser filha de boas famílias, de ter o apoio dos pais, de já ter (de base) uma educação mais diferente, e da coragem e - porque não escrevê-lo - inconsciência de quem tem 17 anos.
    Tudo isso, certo.
    Mas sabe, Picante, eu considero os prémios deste ano como o premiar e realçar de ações (não tanto de quem as desencadeou), do chamar ainda mais a atenção para os direitos que todas as crianças devem ter, para aquilo que é, na verdade, a base da paz: a educação, a igualdade, o direito à infância, o respeito pelos direitos humanos.

    Reduzir um ato de coragem a um "e é isso", é redutor.
    Não é preciso fazer baixar um, para que o outro fique mais alto.

    (normalmente concordo consigo, ou pelo menos partilho parte da sua opinião. outras vezes, fico coma sensação que implica por implicar :) )

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    1. Pode ser, pode muito bem ser. Mas, a ser assim, há muito mais gente que deveria partilhar o prémio. Por aquilo que leio, fosse eu distraída, ficaria a pensar que só Malala foi premiada.
      (mas pode ser que o efeito idade tenha uma repercussão diferente, entre os mais jovens, vamos ter esperança...)

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    2. É um pouco isso, Picante, e um pouco isso.
      "Se uma miúda não teve medo, talvez eu também seja capaz de arranjar coragem".

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  8. É surpreendente! Tem-se sempre a estranha sensação, ao vir ao seu blog, de se ter aterrado no meio da Faixa de Gaza.
    E a não menos estranha sensação, ao retirarmo-nos, de se abandonar uma zona de forte turbulência

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    1. Posso sempre escrever sobre a posição Israel versus Palestina, tenho ideias bastante vincadas a esse respeito. Aí sim, veria turbulência...

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    2. Força! Aí também tenho uma palavra a dizer, e não é propriamente a favor dos Judeus! :)

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    3. Nada que não me tivesse passado pela cabeça.

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    4. Sabe como é. Ou por outra, não sabe!
      Corvo; sempre ao lado da justa causa, sempre ao lado do mais fraco, logo, do injustiçado.
      O emérito pelejador de combates a emergir do oceano dos gelos eterno.

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  9. Falta aí qualquer coisa, não? Ela não ganhou o Nobel porque levou um tiro e foi salva. Ela levou um tiro porque há algum tempo que advogava para si e para outras raparigas o direito de ir à escola, num ambiente totalmente hostil a esse direito. Não foi um tiro ocasional, foi um ataque a uma activista. Uma muito jovem activista, mas ainda assim uma activista.

    E o "senhor indiano" pode ter uma vida de trabalho, mas a "rapariga enternecedora" não hesitou em pôr a sua própria vida em risco por uma causa.

    Que há uma grande máquina de comunicação por trás da Malala não há dúvidas, mas para mim este Nobel também serve para dizer que até uma criança pode fazer a diferença.

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    1. Não digo que não e não ponho em dúvida a coragem de Malala. E percebo o que diz.
      Mas quanto a mim o Nobel vem premiar uma obra. E neste caso não há obra, ainda não há. É por isso que acho esta distinção prematura.

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    2. Não há obra? E os milhares de olhos que foram abertos por causa dos depoimentos destemidos desta miúda? Tem mesmo de se opôr sempre tudo? Elas são as femenistas, ps defensores dos animais, o pão que a outra come ao pequeno almoço e agora até a enorme Malala (que basicamente dedicou TODA a sua - ainda que curta - vida a uma causa de tamanha nobreza? Mariazinha, para si vai o prémio nobel da amargura. E vá, mande-me para a real puta que me pariu outra vez e entrego-lhe o prémio nobel da falta de educação.

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    3. Está com azia?
      (Não, não há obra, lamento desiludi-la, nem sei se muitos olhos foram abertos, é certo que o Ocidente se comoveu. Também pode ser certo que miúdas em igualdade de situação se amedrontaram com a mensagem "quem nos desafia, leva um tiro". A verdade é que não sabemos)

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  10. ah então o que fez está mal feito? A Picante tem aí um ressabiamento contra tudo o que usa véu, a verdade é só esta. Emigre para Israel. E circumcise-se.

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    1. É mesmo só isso que consegue extrair do que escrevi? Eu até conversaria consigo, não fosse a Anónima pessoa apostada em distorcer o que digo só para poder dizer mal.
      Sabe que mais? Vá para o Iemen. E faça uma excisão completa.
      (agora somos as duas burrinhas, não fica só)

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