quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

No meu tempo... ou a Picante também tem qualquer coisinha a dizer sobre isso das praxes

As praxes eram uma coisa daquelas em bom, os caloiros eram aspergidos com umas mistura de perfumes do chinês, no final da praxe iam procurar os sapatos num molho de alguns oitocentos, faziam voluntariado a lavar os vidros dos automóveis que tinham o azar de parar à frente da universidade, eram cobertos de farinha, faziam meia dúzia de flexões e só ficava quem queria, lembro-me de ter mandado uma miúda embora, estava com um ar perfeitamente aterrorizado, prestes a desfazer-se em lágrimas. No final do dia, íamos todos jantar e havia festa no bar da universidade, a praxe servia para aquilo que deve servir, todos nos ficávamos a conhecer e havia muita gargalhada pelo meio. Se as crianças de hoje em dia acham que uma praxe serve para exercer um poder ditatorial, por parte de meia dúzia de inúteis, que nunca hão de ter poder nenhum na vida, então pergunto-me por onde andarão os adultos, que fecham os olhos a humilhações, capazes de pôr em risco a vida de quem ainda a teria toda pela frente.

44 comentários:

  1. Eu deixei a praxe porque achava um tédio. No meu curso, a praxe era leve e simples como a que descreveste. Tinha apenas um defeito... "forçavam-nos" a que faltássemos às aulas, esperando por nós à porta da sala de aula. Eu ainda aturei isso umas vezes, mas depois resolvi foi concentrar-me nos estudos.

    Quando a praxe é feita por gente decente, pode ser gira. Se é feita por idiotas, é simplesmente idiota e humilhante. O problema está nas pessoas.

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    1. No meu tempo de praxe, os meus "doutores" levavam os caloiros à porta da sala, e a praxe incluia nao se marimbar às aula, que no fim eles nos iam esperar para mais um bocado de boa parvoice. Alguns deles sao dos melhores amigos que tenho. Quando foi a minha vez, fizemos o mesmo :)
      E as brincadeiras seguiam na onda do que a Mais Picante descreveu.

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  2. No meu tempo e na minha faculdade havia um único dia de praxe. Eu fui avisada por uma colega mais velha que não precisava de ir às aulas naquele dia porque era dia de praxe, Não acreditei nela e fui. À entrada da faculdade havia colegas trajados que perguntavam se queriamos praxados e distribuiam sacos para os caloiros guardarem os seus pertences. A praxe foi feita no átrio da faculdade. Os alunos que aceitavam submeter-se à praxe eram orientados por um percurso delimitado por cordas, onde passavam por uma zona de pintura facial, outra de prova de sopas de cavalo cansado e uma terceira onde lhes atribuiam um diploma de caloiro. Em cada um destes postos voltava a ser perguntado ao aluno se queria ser praxado. Depois eram conduzidos ao anfiteatro principal onde era feita uma cerimónia com velas e um discurso de boas vindas. Não sei muito mais pormenores porque disse logo à entrada que não queria ser praxada. Não fui posta de parte, não deixei de fazer amigos por não ter sido praxada. Fui a todas as festas e jantares que havia para ir, às do meu e às dos outros cursos. Dificilmente me sentiria mais integrada se tivesse sido submetida a práticas e rituais humilhantes e degradantes. É tudo o que se me oferece dizer sobre praxes.

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    1. Por princípio não sou nem contra nem a favor das praxes. Fui praxada e diverti-me, praxei e diverti-me na mesma, foi tudo uma brincadeira e ninguém obrigou ninguém, a fazer o que não queria. A diferença entre brincar e humilhar é abismal, na verdade apenas depende da educação e formação de cada um.

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    2. É isso Picante. Práticas humilhantes não são praxes, são práticas humilhantes, ainda que lhes queiram chamar outra coisa. Os alunos podem dizer não, devem dizer não se não quiserem submeter-se a elas. Que não há que ter medo de dizer não. "Ah, mas depois não posso trajar...". Como não pode? O seu nome fica na lista das lojas de trajes e ninguém lhe vende um? Ou, se se submeter a actos degradantes os colegas mais velhos fazem uma "vaquinha" e oferecem-lhe o traje? "Ah, mas depois não posso praxar..." Não pode humilhar colegas mais novos? Então ainda bem. De resto, acredito que possa fazer tudo, simplesmente falar com eles, mostrar-lhes a faculdade, tirar algumas dúvidas que possam ter, sair para beber café ou jantar. Ter medo de quem humilha é dar-lhes poder, é permitir que a humilhação continue. No meu caso,ainda que as praxes fossem brincadeiras inofensívas, não me apeteceu andar de cara pintada e enfarinhada, disse que não e "amigos como antes", não tive qualquer represália. Felizmente (e com orgulho) frequentei uma faculdade onde quem praxava conhecia os limites e separava a brincadeira da humilhação.

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    3. Eu comparo estes Dux da tanga a porteiros de discoteca, ou a polícias com bigode farfalhudo. Inúteis, que nunca hão-de ser rigorosamente nada na vida, mas a quem se lhes dá um niquinho de poder. Dá sempre mau resultado.

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    4. Pipocante Azevedo Delirante23 de janeiro de 2014 às 12:59

      Todos os estudantes podem usar traje académico, quer sejam a favor ou contra a praxe.
      Quem se recusa a ser praxado, por ser anti-praxe, fica apenas inibido de exercer... praxe.

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    5. Também é essa a ideia que tenho Pipocante Azevedo Delirante. Mas há um comentário aqui em baixo que parece que vai noutro sentido. Aguardemos desenvolvimentos...

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    6. Sempre ouvi dizer que não... Nada de praxe significaria nada de traje, nada de cortejo... Agora se é verdade ou não, não sei.

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    7. Em Coimbra a praxe não é só a parte do gozo dos novos alunos. A Praxe, em Coimbra, é toda a tradição académica: cortejos, insígnias (como as fitas na pasta, por exemplo), o traje, tudo isso, além da mobilização de caloiros, é praxe. Daí que, teoricamente, uma pessoa que se declare anti-praxe não faça muito sentido participar activamente nas actividades que dela fazem parte. Mas também em Coimbra - apesar de poderem haver alguns excessos que dependem das pessoas e não da praxe e que mais têm a ver com vergonha alheia do que com ameaças à integridade física -, é tudo calmo e sereno na Universidade, por isso muitos dos que não querem participar nas actividades de gozo dos caloiros não têm de se declarar anti-praxe por isso.

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    8. Subscrevo este último anónimo, com excepção do "traje" que não usamos, é capa e batina.

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  3. Pipocante Azevedo Delirante23 de janeiro de 2014 às 09:51

    Há praxes e praxes, há bons e maus praxistas, bons e maus praxados.
    Onde estudei, e quando estudei, não havia o "dia da praxe", era mesmo quando um homem quisesse. Fui praxado por colegas de quem me tornei amigo, e por outros de quem só quis distância. Como tudo na vida. De qualquer modo, a minha vida ou sáude nunca estiveram em risco.

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  4. Eu fui tão praxada....a mais praxada do meu tempo certamente. Era quase assim: Ora vamos lá escolher uma pessoa ao acaso..hummm...hummm...Marisa, és tu!!!
    Dancei para multidões, fiz discursos sobre temas que eles inventaram...acompanhei o presidente em noitadas e bebedeiras (que grande sacrifício Meus Deus)...! Rastejei em lama...fiz tudo o que lhes apeteceu a eles e a mim...recusei o que não fazia sentido algum!! Simples assim...

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    1. Nós tínhamos um dia de praxe. E tínhamos de pedir autorização ao reitor, autorização essa que envolvia explicar o que iria acontecer. Surpresas... só planeadas.

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  5. E quando nos punham sentados numa pedra a pensar, a pensar, a pensar....
    Estudei Filosofia.

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  6. tipo, professores? conselhos directivos? pais, como aqueles que sabiam dos fins de semana de preparação de praxes / rituais?

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    1. Tipo reitores ou concelho directivo, sim. Com explicação detalhada do que pretendem fazer. Alguns dos nossos professores assistiam às praxes, não me lembro de nenhum ter de intervir.

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    2. Uiiiii caramba! Juro que agora até corei, erro grosseiro, do mais grosseiro. Conselho.

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  7. Só uma perguntinha: o DUX é o mais burro do curso não é?

    Quer dizer, duas:

    Aos vinte anos é-se adulto não é?

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    1. Não sei se é o mais burro. Normalmente é o que fica por lá mais tempo. Será talvez o mais irresponsável, aquele cujos pais nunca lhe disseram "se não estudas vais trabalhar que eu não sustento malandros"

      Supostamente sim, é-se adulto. Mas ainda se é muito parvinho.

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    2. Já agora, minha querida picante. Venho publicamente agradecer-te uma anónima chata comó raio que anda lá no meu sítio a melgar-me como se não houvesse amanhã... :DDDDD obrigadinha pela herança... :DDDD

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    3. Só blogues, NM, só blogues...

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    4. A minha Dux não era a que estava lá há mais anos...era só a pessoa eleita pelo restante curso. O presidente e os veteranos é que acumulavam matriculas.

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    5. NM, e ainda agora começou a brincadeira, ainda agora começou...

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    6. Ó NM, sempre tão pespeneta, sempre de resposta pronta na ponta da língua, não me diga que não chega para essa anónima?

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  8. As coisas acontecem , porque as deixam acontecer, mais nada.

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    1. Nada na vida é assim tão simples.

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  9. Pela minha experiência acho que só existe praxe na Universidade do Porto. No resto de país é tudo muito à volta desses joguinhos, de festas e palhaçadas. Aqui na UP é a sério, é a doer. Mas acho que é uma realidade difícil de explicar para quem é de fora. Acho que é escusado dizer que aguentei duas semanas e nunca mais lá pus os pés. Pena é que com isso veio a impossibilidade de trajar e de participar no Cortejo.

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    1. Ainda bem que encontro alguém que me esclareça essas regras que nunca percebi. Explique-me isso de não poder trajar... Que não participe no cortejo, consigo imaginar "ah, não te deixaste praxar, agora não te deixamos ir no carro, que é nosso e fomos nós que pagámos". Agora trajar? Não podia ir comprar o fato, nãoo lho vendiam? ou se os seus colegas a vissem trajada arrancavam-lhe as roupas?

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    2. Tenho as mesmas dúvidas que a Mirone e ainda acrescento mais: como é que sabem que alguém não foi praxado? Têm uma lista, uma base de dados? E em caso afirmativo, isso não viola - um poucochito - os direitos de associação e manifestação dos estudantes? E a comissão nacional de protecção de dados, sabe disso?

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    3. Pipocante Azevedo Delirante23 de janeiro de 2014 às 17:05

      O traje não faz parte da praxe, é o fato do estudante (servia para indeferenciar os ricos dos pobres, segundo sei). Por isso, TODOS o podem usar, inclusive CALOIROS, que não podem exercer praxe.
      Pelo menos era assim...

      O saber quem praxou ou não... digamos que há uma base de dados mental :)
      Vivia numa residência, em que 2 caloiros se recusaram a ser praxados. Simplesmente no ano seguinte, tiveram direito a "sombra", e bem que tentaram praxar outros... mas sem sucesso.
      Já agora, existem "punições" para quem se declare anti-praxe e depois participe em praxes...

      PS: essa treta de que quem não se deixa praxar é ostracizado e tal... vejam menos filmes,, por favor.

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    4. Ah, tá certo. Não quiseram ser praxados mas no ano a seguir já queriam praxar outros...

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    5. Mirone e Izzie, acho que há um acordo tácito entre os praxistas e não praxistas quanto a esse assunto. Ninguém me impediria de ir a uma loja comprar um traje e de aparecer no meio do cortejo. Não há uma polícia da praxe. Eu é que opto por não o fazer porque não tenho qualquer vontade de integrar a praxe. Prefiro que a minha avó nunca me veja de traje académico do que fazer parte de um conceito no qual não acredito minimamente. E muitos dos meus colegas pensam assim (além de que um traje é caríssimo para se usar só uma vez por ano!). Quanto muito no último ano visto o polo da minha faculdade, ponho uma cartola na cabeça e participo no cortejo assim mesmo. Aqui na UP a praxe dura o ano inteiro (com excepção das épocas de exames) e termina na semana da Queima. É fácil saber quem pertence e não pertence à praxe porque num curso de 200 alunos só 60, por exemplo, é que o fazem, Logo os praxistas mais velhos (os veteranos, doutores, putos, semi-putos, etc) conhecem relativamente bem os caloiros. É que há muitas actividades praxistas! Recepções, visitas às caves, rallys de tascas, festas académicas, noites de tunas e fados (nem todas são exclusivas para praxistas), etc. É fácil distinguir quem participa de quem não participa. Mas uma vez que é tudo muito à volta da máxima 'quebrar para integrar', não me despertou grande interesse. Sempre que me chamavam nomes, me diziam para olhar para o chão, me punham de 4 ou de 3, me diziam para cantar músicas pornográficas, para rebolar na lama, para cantar músicas de ataque a outras faculdades... Eu só me conseguia rir! Quando soube o que era uma recepção e do que tipo de coisas que se passa numa percebi o quão estúpidas as pessoas conseguem ser só para serem aceites. No dia em que me chamaram pela primeira vez 'puta' e me disseram que o que eu gostava era de estar de quatro foi a última vez que lá pus os pés. No entanto, e por mais estranho que isto seja, tenho grandes amigos que não só são praxistas como pertencem aos representantes da praxe.

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    6. Resumindo, não há impossibilidade de usar capa e batina. Não quis.

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    7. Obrigada, anónima. A sério que me fazia confusão o argumento de "não poder trajar". Compreendo perfeitamente que não tenha querido usar o traje.

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    8. Entendido. Já agora, também não comprei traje, não fiz pasta e não fui à benção, o que me mereceu muitos comentários de incompreensão e admiração. Mas lá está, para usar um dia, com franqueza, e nunca tive grande amor ao espírito académico-praxista.

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    9. Não, Mel. Além de não querer não posso participar nas actividades praxistas, tal como expliquei. Posso comprar um TRAJE mas para quê? Para andar a passeá-lo em casa?

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  10. Bem pelos sapatos...estudaste em Aveiro?!

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  11. Mas afinal em que anos lá andou? Lá para o principio do século passado?

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  12. Não sei o que se passa nas praxes da Lusófona porque não estudei lá. Sei que praxam bastante porque é comum ver caloiros a ser praxados no jardim do Campo Grande em Setembro, Outubro por isso assumo que levam as praxes a sério. Dux na minha faculdade não existia, mas soube de um Dux da Universidade de Coimbra há uns anos, que tinha quase 40 anos de idade e não sei quantas matrículas (e um ar absolutamente assustador). A não participação na praxe é normalmente acompanhada desse aviso "ah se não participas depois não podes trajar"...penso que trocado por míudos significa que esse aluno não pode participar na cerimónia oficial de atribuição de direito a trajar (algo que acontece salvo erro em Maio do 1º ano lectivo, por altura das semanas académicas). E obviamente não pode praxar. Sinceramente, acho que isso da praxe é tudo uma perda de tempo e uma parvoíce (no contexto de Lisboa, que é o que conheço). Desde 15 de Dezembro para cá é também merecedor de figurar nos Darwin Awards ;)

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    1. Esse senhor de Coimbra continua a ser o Dux lá do sítio. Já o é há mais de 20 anos. O que é extremamente ridículo.

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  13. As minhas praxes foram tal como as que descreveu. Acrescento várias atividades de solidariedade para ajudar duas instituições (já acabei o curso há uns aninhos e fico feliz por saber que, ainda hoje, o meu curso continua a fazer essas atividades, para ajudar as duas instituições). A praxe, quando bem feita, é uma coisa muito boa.

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