segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Uma aventura na Blogolândia

"Este lamentável episódio teve como consequência imediata o restringimento da veia esclarecedora do Josefino, que sem poder disfarçar a tristeza, lá foi dizendo que, francamente, estava deveras admirado pois parecia que toda a inspiração Divina fora subitamente derramada sobre o condomínio, pois todos os moradores tinham entrado em profunda reflexão de paz e amor ao próximo em detrimento do belicismo de que até então se compusera as suas vidas.
Como que querendo dar-lhe razão, fomos sufocados por uma multidão ruidosa, ostentando grandes cartazes apelando ao sentido fraternal entre castas, do tipo: TODOS DIFERENTES; TODOS TEMOS DENTES; PELA SALVAÇÃO, ESQUEÇAM A INGRATIDÃO; PARA A ALMA SALVAR, ABRAÇAR ABRAÇAR; SE TE QUERES REDIMIR, À GAIOLA DEVES IR; e por aí adiante.
Deve-se, contudo, para um convincente esclarecimento do propósito filantrópico conducente ao bom carreiro dos moradores tresmalhados, os cartazes com ABRAÇAR ABRAÇAR eram portados pelos anciãos e diáconos da comunidade, que não só mostravam como se empenhavam a fundo em calorosos abraços às mulheres que por ali deambulavam. Particularmente, constatei sobremaneira agradado, que não regateavam nem tempo nem esforços na demonstração da Salvadora Causa.
– Ora aqui está o que lhe quis dizer, caro Corvo. Ainda bem que o senhor viu isto porque contado tenho sérias dúvidas que acreditasse nesta sublime fraternidade. – Exaltou radiante, o Josefino.
Antes que pudesse responder-lhe, o que, convenhamos, seria um pouco difícil dada a sufocante comoção que me assolara, os indeléveis acordes de uma belíssima música árabe deleitaram-me os sentidos. Para completar o êxtase, logo à entrada dos frondosos jardins, um grande cartaz exibia: ERRAR É HUMANO, PERDOAR É DIVINO.
– Ah! Vejo que está comovido, senhor Corvo, – explorou o meu deslumbramento, o Josefino. – Isso é mais uma história muito comovente sobre a remissão dos pecados. A proprietária dessa casa também andou numa guerra declarada e feroz com outra moradora sobre a discrepância do que era, ou deveria ser a autenticidade de almofadas bordadas a eito ou cuidadosamente bordadas a quatro agulhas com os fios enviesados. A coisa agravou-se, muito sangue a terra bebeu, a belicosidade extrema dividiu o país, mães extremosas descuraram os rebentinhos para aderirem à causa, a renúncia do Gaspar foi menosprezada e a irrevogabilidade do Portas seguiu o mesmo caminho e, imagine o caro Corvo, para que possa ainda que só muito sucintamente avaliar a tremenda dimensão da horrenda beligerância entre a duas guerreiras, até o Jorge Jesus passou a ter só dezoito horas de honras jornalísticas.
– Então, mas pelo que leio no cartaz exposto parece que chegaram a um entendimento, não? – Quis saber eu.
– Bom, chegaram; quer dizer, dá laivos disso. – Respondeu-me o josefino, visivelmente de pé atrás.
– Mas, afinal chegaram ou não?! – Exigi eu saber, não deixando pela valeta o meu pragmatismo.
– Chegaram, pronto!...Que remédio. Veja o senhor Corvo se não é intervenção Divina. Ambas têm filhinhos a quem necessitam de contar muitas histórias para adormecerem na Paz dos Anjos e, chegaram à conclusão que o tempo para a liça lhes fazia falta. Bem, que a proprietária da mansão que o senhor vê só tem um filhinho, mas fontes fidedignas asseguram que dá mais trabalho e necessita de mais histórias para adormecer do que os três da outra."
(Continua)
Graciosidade  do estimado Corvo

6 comentários:

  1. Muito bom. Esse Corvo é demais :D

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  2. Ahahahahahahahahahahahahah!
    Que delícia, estou fascinada. ;)
    Os filhinhos queridos das mamãs dão tanto trabalho, meu deus! É por isso que eu filhos nem morta!

    Ahahahahahahah!!!

    Sheila Carina.

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  3. Este Corvo é o Pássaro Viajeiro de outros tempos, não é?

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    1. Pássaro ou corvo, corvo ou pássaro é tudo bichesa voadora.

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  4. Alguém me explica como se pode perder um cão?
    ou foi falta de atenção.

    Ana.

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    1. Que raio de comentário Ana. Basta que a cadela esteja com o cio. Ou que um cão fareje uma cadela com o cio. Há imensos cães que fogem, não percebo esse comentário.

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